quinta-feira, 17 de março de 2011

TSUNAMI NO NORDESTE


O filme Síndrome da China, de 1979, trata da cobertura jornalística do problema ocorrido em uma usina nuclear na Califórnia. Tem esse título pela seguinte razão: dizia-se, erroneamente, que se o reator da usina derretesse, faria um buraco que atingiria o outro lado do mundo – a China. Aqui pelo Nordeste, quando criança, dizíamos quase a mesma coisa: se furássemos um poço na superfície terrestre, até atingir o outro lado, atingiríamos o Japão. 

A velocidade de circulação da informação tornou o mundo pequeno. Aquele contato com o outro lado do mundo, hoje é feito com uma rapidez espantosa através dos mais variados meios de comunicação, e de repente assistimos, da nossa poltrona, toda a destruição e dor da nação amiga, inclusive o perigo da fusão do núcleo das usinas nucleares, o que alguns estão chamando de Síndrome do Japão, em contraponto ao título do filme citado. Como sempre acontece, ao saber da desgraça dos outros, começamos a pensar na possibilidade de que também nos atinja. 

Sábado passado, na Livraria Independência, um dos vendedores – Silvio – me perguntou:
 – Professor, o que você sabe a respeito do tsunami que ocorreu no Japão?
– Sei apenas o que foi noticiado, respondi. Nenhum conhecimento aprofundado sobre o assunto.
– É porque eu queria saber quantos km, terra adentro, aquele tsunami teria alcançado. Informei que não sabia e indaguei por que ele estava precisando dessa informação.
– Estou discutindo com um colega que diz que se Tibau fosse atingido por um tsunami, Mossoró também seria atingida, que você acha?

Naquele momento, embora ríssemos da preocupação do citado colega, lembrei que tempos atrás, nas altas marés, o mar adentrava o Rio Mossoró, atingindo praticamente o centro da cidade. A área onde hoje está situado o mercado da Cobal era conhecida como “Salgado”. Lá havia um pequeno campo de futebol, onde só nasciam plantas halofitas como pirrixiu e bredo, As barragens construídas ao longo do Mossoró, além de represarem a água do período chuvoso, passaram a impedir essa inundação salgada. Mas toda essa área de cerca de 42 km, entre o litoral e Mossoró, é muito plana, com uma altitude média de apenas 5 m, e por essa condição de ser facilmente invadida pela água das marés e do rio quando cheio, é que o estuário é chamado de afogado. No caso de tsunami, seria tomada pela água do mar sem dificuldade. Nossa tranqüilidade estaria na raridade do fenômeno no Atlântico.

Ao chegar em casa, alem de folhear rapidamente os livros que havia comprado no sebo (um livro de Clarisse Lispector e outro de Lygia Fagundes Telles), lembrei de verificar, com mais vagar a possibilidade de um tsunami no Nordeste. Eu já sabia que o asteróide que causou a extinção dos Dinos, há 65 milhões de anos, havia deixado marcas nas costas pernambucanas, através de um tsunami com ondas de 20 m de alturas. Mas isso, quando não havia gente por aqui para observar e morrer. E qual não foi minha surpresa, ao me deparar com informações atuais sobre o que se esta chamando de mega-tsunami, que poderá ocorrer a partir da erupção do vulcão Cumbre vieja, localizado na ilha vulcânica de La Palma, no arquipélago das Canárias.  O The Guardian noticiou, a BBC apresentou documentário e de repente todo o mundo acordou para essa possibilidade.

O cientista americano Steven Ward, da Universidade da Califórnia diz que o vulcão possui um ciclo de atividade de 250 anos e que está prestes a acordar de novo. O pior, desta vez é que ele deverá jogar ao mar, metade da montanha que o forma, uma massa com cerca de  1.5 x 1015 kg, gerando imediatamente ondas com a magnitude de 600 metros de altura. 

Se tudo ocorrer como o diabo quer e as simulações estiverem corretas, as ondas gigantes, navegando à cerca de 1000 km/hora, chegarão à costa africana em uma hora, ao Sudeste da Inglaterra em cerca de 3 horas, e à costa leste da América do Norte e ao Nordeste do Brasil, em mais ou menos 6 horas. Claro que a energia daquela onda original já estaria bastante diminuída, mas com possibilidades de produzir ainda ondas muito fortes de 4 a 8 metros de altura. 

O Jornal do Commercio de Pernambuco entrevistou o prof. João Adauto de Souza Neto, coordenador do curso de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que está ciente dessa possibilidade. Diz o cientista que antes de alcançar Fernando de Noronha, a onda gigante atingiria os Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e litoral norte do Rio Grande do Norte, o que nos coloca dentro da área de perigo.

A coisa é tão séria que na América do Norte já há estudos e preparativos para o caso do desastre vir realmente a acontecer. Cidades como Boston, Nova York, Washington D.C. e Miami, seriam severamente atingidas. Não são apressadas essas providencias, considerando o caso do Japão, que já esperava um grande terremoto há bastante tempo, mas que teve prejuízos monumentais. Para se ter uma idéia, a previsão feita em 2002, era de que quando ocorresse, cerca de 6.000 pessoas sucumbiriam quase que imediatamente. E isso está ocorrendo. No caso do Cumbre vieja, a questão também não é se, mas quando ocorrerá.

Calma, porém! Como sempre acontece, há quem duvide da magnitude do deslizamento de parte do Cumbre vieja para o mar, que gerará a onda. Tudo isso não passaria, ainda, de remota possibilidade, embora cientificamente baseada. Outros cientistas acham que o vulcão não explodiria em uma única rocha e que a onda criada seria muito menor. Mas como faz tempo que a gente escuta essa conversa de que o sertão vai virar mar, e com nosso velho hábito de só fechar a porta depois de roubado, é melhor ir pondo, calmamente, as barbas de molho. Eu, por exemplo, desejava muito mudar-me para Tibau, mas por enquanto vou ficando por aqui no Alto de São Manoel, bem no alto, longe das águas e mais perto de Deus a quem peço bênçãos para o sofrido povo japonês.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O LIVRO DO PAPA: NÃO LI E JÁ GOSTEI


Noticia-se, que em um novo livro, o segundo volume de sua obra “Jesus de Nazaré”, o Papa Bento XVI, exime os judeus da culpa pela morte de Jesus, repudiando assim, o conceito de culpa coletiva. O livro, de 348 páginas, foi lançado hoje em Roma, em sete línguas: alemão, italiano, inglês, espanhol, francês, português e polonês. A questão já havia sido objeto de manifestação oficial da Igreja, em um importante documento produzido pelo Segundo Concílio do Vaticano em 1965: 

Se bem que os principais dos judeus, com seus seguidores, insistiram na morte de Cristo, aquilo, contudo, que se perpetrou na sua paixão não pode indistintamente ser imputado a todos os judeus que então viviam nem aos de hoje.(Nostra Aetate,1966).

Embora em 1959, o pontífice João XXIII houvesse dado um passo na direção do entendimento, ordenando retirar da liturgia as frases, judeus pérfidos e perfídia judaica, desta vez a novidade é que um Papa repete como sua interpretação teológica, a afirmação do Concílio. O mundo judaico aplaudiu o posicionamento papal sobre esta questão, que tanto sangue inocente já derramou pelos séculos a fora. Não há dúvida de que, do ponto de vista dos contatos judaico-cristãos, é mais um passo importante. 

Gostei, mas acho inócuo. E todos sabem disso. Não é fácil mudar a opinião de milhares de pessoas pelo mundo, tendo continuamente, diante dos olhos, não só a afirmação neotestamentária do Seja crucificado! (Mt.27,22), mas várias outras, como reforço do antissemitismo. Como um cristão vai aceitar uma decisão da Igreja ou o entendimento pessoal do Papa, se a cada vez que ele folhear sua Bíblia - que tem como a própria palavra de Deus - vai ler que foram os judeus que votaram favorável à morte de Jesus? E os milhares de textos da tradição, que enfatizaram a culpa judaica? Alem do mais, o Papa declara que esses volumes são escritos sob sua visão teológica e não sob a autoridade da Igreja, sendo passíveis de discussão.

Considere-se, também, que o documento do Segundo Concílio do Vaticano e o livro do Papa, embora expressem, o reconhecimento do erro cristão, atingem apenas uma reduzida minoria.

Da França continuará gritando o bispo Massilon (1663 – 1742), pregando que -  Esse povo furioso exige que Seu sangue recaia sobre ele por toda a sua posteridade; da Alemanha permanecerá berrando Lutero (1483 – 1546) através do seu panfleto Contra os judeus e seus embustes (são cerca de duzentas páginas de impropérios) associando-os ao Diabo tal como fez o apóstolo João, colocando na boca de Jesus, a afirmação de que os judeus, mesmo os que a pouco o haviam aceitado, seriam filhos do Diabo (Jo 8, 31-44).Gritos que ecoaram, por séculos, como acusação e licença para perseguir e matar.
 
Contudo, o povo católico tem agora, um documento oficial e outro papal, pessoal é verdade, ensinando que o termo “judeu”, mencionado no affair Barrabás e em outros momentos do “Novo Testamento”, se referia à cúpula sacerdotal, e não ao povo em geral.

Se há de fato a vontade de eximir os judeus dessa culpa falaciosa, a continuação do processo deverá ser feita na formação de padres e pastores, para que quando das suas futuras prédicas, rechacem as interpretações antissemitas daqueles textos, optando pela verdade. Textos, por sinal, escritos vários anos depois dos fatos, em situação de perseguição, escritos em Roma para romanos, lavando as mãos de Pilatos e sujando as dos judeus.

Que grande descoberta, essa da inocência dos judeus! Quanta maldade! Foram necessários mais de dois mil anos para que se enxergasse algo tão simples. Só alguma espécie de cegueira diabólica pode ter impedido esse entendimento por tanto tempo. Oremos pelas vítimas dessa infâmia.

quinta-feira, 3 de março de 2011

ESCRITORES FAMOSOS: ESTRANHEZAS NA VIDA E NA MORTE


Mesmo sem querer fazer uma pesquisa sistemática, sobre os fatos curiosos na vida de autores famosos, aos poucos fui acumulando informações bastante interessantes. São manias, loucuras, tragédias pessoais, modos diferentes de se encaixar no mundo, que terminam por torná-los únicos. Escrevo, neste post um pouco longo, sobre algumas dessas estranhezas, ligadas a esses que considero eternos e fiéis amigos.

Surpreendeu-me, por exemplo, saber que, fugindo da maneira habitual, Fernando Pessoa, poeta português, preferia escrever de pé, no que alias, era semelhante à Guerra Junqueira, e que o escritor americano Truman Capote, bem ao contrário, se dizia um escritor horizontal – só conseguia pensar e escrever deitado.

Quanto ao produto da atividade literária, Clarisse Lispector dizia que, provavelmente, escrevia para salvar a vida de alguém, talvez a dela própria. Rachel de Queiroz, por sua vez, revelou seu estranho desprazer por essa atividade. Nem gostava de escrever, nem de ler o que escrevera. Um grau a mais, no reino dessa estranheza, é o caso do livro Museu do Romance da Eterna, lançado recentemente no Brasil, do argentino Macedônio Fernandes, amigo e inspirador de Jorge Luis Borges, que foi escrito para não ser lido. Não é bizarro?

 E o que dizer das esquisitices do grande contista Dalton Trevisan, que arredio, não cede o telefone a ninguém, não recebe visitas, é avesso a entrevistas e cujas raras fotos surgidas na imprensa foram feitas às escondidas? Dizem que detesta as edições antigas dos seus contos, pois ao contrário de Rachel, continua a reescrevê-los, a cortar, a podar o texto. Simenon, escritor belga, criador do inspetor Maigret, também cortava muito do seu texto, mas antes de publicá-los. Por incrível que pareça, retirava tudo que fosse literário: adjetivos, advérbios e todas as palavras que pudessem causar efeito estético. Por isso, nunca gostei dos seus romances policiais, preferindo Agatha Christie, de quem li quase tudo.

Eça de Queiroz, grande estilista português, era altamente supersticioso. Quando jovem vestia-se sempre de preto e ao chegar a algum lugar dizia – Cheguei, eu e meus abutres. E ainda mais: iniciava a subida de escadas sempre com o pé direito. Se esquecia com qual pé havia começado, voltava ao primeiro degrau. Dizem ter passado muito ridículo por causa disso. Mais supersticioso que ele, só encontrei o já citado Truman Capote: 

Tenho que multiplicar todos os números: há certas pessoas para as quais jamais telefono porque o número de seus telefones multiplicados, formam algarismos que não dão sorte...Não suporto flores amarelas...não viajo em avião em que haja duas freiras.

Aparentes frivolidades para a maioria, mas significativas para certas cabeças. Edgar Allan Poe, o pai do romance policial, por exemplo, tinha verdadeiro pânico de ficar só, de ser enterrado vivo, angustia que debelava através do álcool, que o terminou matando.

Também extravagantes são algumas de suas mortes, ou os acontecimentos em torno delas. Como o que ocorreu durante a morte de Machado de Assis. O grande escritor faleceu, ao que parece, de um câncer bucal, e segundo afirma-se morreu tranquilamente. Presentes estavam seus companheiros mais íntimos: Mário de Alencar, José Veríssimo, Coelho Neto, Raimundo Correia, Rodrigo Otávio, Euclides da Cunha. Contudo, há um fato inusitado: jóias e documentos foram roubados de sua casa, durante a sua agonia. Quem teria cometido o crime? O jornal O País, noticia em 06 dezembro de 1908, o inicio do inquérito. Coincidentemente Machado escrevera em Quincas Borba:

No meio daquela agonia, atravessaram-lhe o cérebro algumas memórias banais estranhas à situação, como a notícia de um roubo de jóias lida de manhã nos jornais (...)”
Euclides da Cunha, presente ao último adeus a Machado, morreria em menos de um ano depois, de forma trágica. Refiro-me a este caso, en passant, por já ter sido muito explorado. Ficou conhecido como A Tragédia da Piedade.

Certos casos são difíceis de acreditar, pelo inusitado, por sua quase impossibilidade. Como o que aconteceu com o educador e escritor baiano Anísio Teixeira. Primeiro, pelo fato da aparente premonição da sua morte. Dois meses antes do fato escrevera para um amigo:

Por mais que busquemos aceitar a morte, ela nos chega sempre como algo de imprevisto e terrível, talvez devido seu caráter definitivo: a vida é permanente transição, interrompida por estes sobressaltos bruscos de morte". (carta a Fernando de Azevedo)

Depois, pela causa da morte. Anísio, instado pelo amigo Hermes Lima, decidira candidatar-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, e como de praxe, realizou visitas protocolares aos acadêmicos. Josué Montello, registra no seu Diário do Entardecer, o encontro que tivera com ele a esse respeito. Depois de realizar a última visita, ao lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, Anisio desapareceu. Diz Josué:

   De repente, ao visitar outro amigo, a Fatalidade veio ao seu encontro. Anísio abriu   a porta de um elevador, que supôs à sua espera, e deu um passo firme, para se precipitar ao fundo do poço, sem que lhe vissem a queda.

 Anisio tinha toda razão sobre a imprevisibilidade da morte. Robert Lowell, poeta norte-americano, fundador da chamada poesia confessional, exalou seu último suspiro dentro de um taxi, em Nova York, em 1977. Sofreu um ataque cardíaco a caminho da reconciliação com sua segunda esposa, Elizabeth Hardwick. Roland Barthes, escritor e crítico literário francês, desenvolveu a idéia da morte do autor, defendendo o leitor e o crítico como criadores, junto com aquele, do sentido do texto. Famoso e muito solicitado, costumava freqüentar os mais importantes ambientes de Paris. Em 1980, após um desses encontros, com o então primeiro-secretário do Partido Socialista, François Mitterand, morreu atropelado em uma das ruas de Paris. Violento e inesperado final para uma mente brilhante.

Você sabia que o genial Guimarães Rosa, eleito para a Academia Brasileira de Letras, adiou sua posse por quatro anos, por medo de morrer de emoção durante o evento? Um dia criou coragem, marcou a data, empossou e morreu três dias depois, subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa estava na missa).Teria ele decidido pela posse, por saber, como médico, da morte iminente? Ou teria vivido mais se não tivesse empossado?      
       
 Pedro Nava, memorialista, e Otto Maria Carpeaux, crítico literário, tomaram conta de suas próprias mortes. Acharam que era chegado a hora e fizeram acontecer. O primeiro, aos 80 anos, depois de receber um misterioso telefonema, saiu de casa, com uma arma que ninguém sabia que tinha, e estourou os miolos. Seu corpo foi encontrado debaixo de uma árvore. Levou consigo as razões do seu ato. Se bem que se especule que o telefonema fora de um garoto de programa. O segundo faleceu em 03 de fevereiro de 1978, aos 79 anos. Causa oficial da morte: ataque cardíaco. Causa verdadeira:

Na madrugada de uma sexta-feira (03 de fevereiro de 1978), em último e vigoroso gesto, o escritor Otto Maria Carpeaux arrancou o emaranhado de tubos e sondas que atavam à vida seu precário corpo de 79 anos. “Mais liberdade”, pediu, - e lentamente mergulhou na agonia, morrendo no começo da tarde. (do livro, A Biblioteca e seus Habitantes, de Américo de Oliveira Costa).

Alerta aos escritores em potencial e àqueles que se julgam tal. Essas singularidades e destinos ocorrem naturalmente, não será por imitá-las, que as habilidades nos virão, como ocorreu com um meu amigo, pretenso músico, que ao ouvir de mim, que Beethoven era surdo, apresentou instantaneamente esse problema. 

Das superstições e manias, não escapamos, pois todos as temos. E nem da morte, sinal de igualdade na equação da vida. Só nos resta rezar para que a nossa partida seja plácida como a de Petrarca, poeta e humanista italiano do século XIV, que foi encontrado morto, de causas naturais, sentado em sua biblioteca, com a cabeça repousada sobre um livro. Uma morte literária, quase normal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

MESTIÇO É QUE É BOM!



Há algumas semanas fui com minha esposa à Livraria Potylivros, localizada na UERN e comprei o livro Mestiço é que é bom! O livro é baseado em uma longa entrevista com Darcy Ribeiro, feita, em 1995, por vários intelectuais, A ciência tem demonstrado isso. Pesquisa feita pela Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, sugere que as pessoas mestiças são vistas como as mais atraentes. E cita o caso da atriz Halle Berry, a que acrescento, por conta própria e risco, para ficar no mundo das atrizes, a belíssima Jennifer Lopez.  Mas o ponto de vista de Darcy, diz respeito à composição étnica do brasileiro, fadado, segundo ele, a constituir uma nova civilização nos trópicos. Diz ele: Somos melhores porque lavados em sangue negro, em sangue índio, melhorado, tropical.

Agora, neste fevereiro de 2011, noticia-se que uma pesquisa realizada com 934 pessoas representativas das várias regiões brasileiras, conduzida pelo geneticista Sergio Pena e equipe , mostra o quanto estamos realmente mestiçados. Afirma Pena, em entrevista à Folha de São Paulo, que isso seria o resultado da chamada política do branqueamento, defendida por estadistas e intelectuais nos séculos XIX e XX. Destacam, também, o que já sabíamos, isso é, que os genes da cor da pele e dos cabelos, são muito poucos, parte desprezível da herança genética, embora seu efeito seja muito visível, mas por baixo da pele, somos bem uniformes. 

Chamo a atenção para os dois extremos da pesquisa. A amostragem daqueles que se identificaram como brancos no Rio Grande do Sul, por mais branquelos que fossem, apresentaram 5,3 % de genes africanos, e na Bahia, a morena mais frajola, possui, por mais escura que seja sua pele, 53,9 % de genes europeus. Nenhum isento de sangue índio. 

Em 1991, publiquei, no jornal Tribuna do Assu, um artigo intitulado Da Inferioridade Negra, onde procurava mostrar, a irracionalidade do racismo entre nós. Louvava-me, em pesquisa com resultado semelhante, já produzida pelo mesmo cientista, publicada na Ciência Hoje, nº 50 de 1989, para mostrar o quanto estávamos misturados e quão errados estávamos em considerar inferiores os de pele escura.Em determinado ponto do artigo disse: 

Nesse fim de século, confirmando uma previsão do Presidente Roosevelt, os  Estados Unidos da América, assumem, solitários, a posição de xerifes do mundo. É a potencia maior. Pois não deveria ser, se os negros fossem de fato inferiores como insensatamente ainda insistem alguns. 

Destaquei, então, as figuras negras que dirigiam a capital Washington e as forças armadas daquele grande país do Norte. Naquele ano, o mestiço Obama acabava de se  formar em Direito na Universidade de Harvard e nem sonhava em se tornar o cumprimento da profecia de Monteiro Lobato no seu livro O Presidente Negro.
 
Mas que ninguém se engane, Monteiro Lobato, apenas dava asas, no seu romance, às idéias racistas defendidas por Le Bon em L’Homme et les Sociètes (1881) onde afirmava que os seres humanos foram criados desigualmente, e assim, a miscigenação seria um fator de degeneração racial. Idéias, hoje, completamente desacreditadas pela ciência, mas que deixaram raízes profundas nas crenças populares. 

Como muito bem diz o grande antropólogo na entrevista, pela capacidade de miscigenação de portugueses e espanhóis, já lembrada também por Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala, estávamos fadados à salutar mistura. Em consequência, diz Darcy, somos hoje, a nova Roma, os representantes dos latinos e coexistiremos, no futuro, ao lado de milhões de árabes, neobritânicos e chineses. A explicação de sermos a continuação dos romanos é feita de forma irreverente:

Somos a maior massa latina. Os franceses ficaram tocando punheta, os italianos bebendo chianti, os romenos com medo dos russos, quem saiu fodendo por aí foi espanhol e português e fizemos uma massa de gente que é de 500 milhões.(pg. 105 de Mestiço é que é bom)

Na entrevista Darcy conta, também, a hilariante tentativa de acasalar-se com uma francesa virgem, que deu em nada, mas essa é uma outra história sobre miscigenação.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

MEUS PETS QUERIDOS


Certa vez conversando com o historiador Raimundo Soares de Brito, fiquei sabendo que ele não cria gatos. Sofreu muito com a morte de um bichano de sua estima e decidiu que essa dor ele não desejava repetir. Eu crio gato e cachorro. Claro que já perdi vários.  Sofri, mas continuo criando. Minha avó tinha uma razão mística para a posse de animais. Dizia que deveríamos ter sempre um animal, para o caso de alguma desgraça cair sobre a família. Segundo ela, o bicho é que pagaria o pato. Uma espécie de garantia sacrifícial. Ainda segundo ela, era para dizer cachorro, cão era o diabo. 

Como tenho dúvidas de qual gosto mais, sempre criei os dois, o que nem sempre dá certo. Dentre os vários que já tivemos, dois foram especiais. Pretuxa, uma cadela preta, companhia adorável, que teve câncer de seio, foi operada, mas a recidiva matou-a, (Não gosto de recordar esse assunto doloroso), e um gato com o estranho nome de Budura, o gato que veio do céu. Não se assustem com o nome, nem me peçam para explicar o significado, não sei, só sei que foi assim. Ele nasceu em cima da casa, foi abandonado pela mãe e despencou pelo pergolado, sendo aparado, “milagrosamente” pela minha filha Tétis. Lembro que ela me fez ir, imediatamente, comprar uma mamadeirinha para salvar o gato, e conseguiu. Fez história por aqui esse cara. Farrista, só chegava em casa pela manhã, todo arranhado e amarfanhado. Acho que se tornou meio humano, abria gaveta, guarda-roupas, geladeira, derrubava a marmita para abri-la, e por aí vai. Garanto que quando forem escritas As Aventuras de Budura, vocês vão se surpreender. Alias, antes que alguém toque no assunto, mais feio que Budura é Nyoca, e nem por isso Hollywood deixou de faturar com suas aventuras. 

A grande imprensa noticiou que um gato foi flagrado, por uma câmera escondida, roubando mais de 600 objetos da casa de moradores da cidade de San Mateo, na Califórnia. O gato chamava-se Dusty. Toalhas, luvas, sapatos, calcinhas e brinquedos estavam entre suas preferências. Duvido que esse delinqüente fosse mais inteligente que Budura. Talvez mais ladrão.

Atualmente criamos um mestiço de Pitibul, e também uma gata, cuja atividade principal é escapar do cachorro. Ela já mapeou a casa e sabe com exatidão por onde não anda o adversário. Não sei até quando resistirá.  Às vezes tem discussões acaloradas: a gata fala baixinho, num bate queixo quase inaudível, o cachorro fala alto. Já tivemos os que se davam bem, como aqueles da foto acima, mas estes não, sempre que se encontram dizem-se cobras e lagartos.   Acho que é a gata que começa o barraco. Eita gata conversadeira, falta pouco para falar de verdade. Outro dia o despertador do celular disparou com aquela voz irritante pra quem esta aposentado – São seis horas, é hora de levantar. Pois não é que a gata foi tirar satisfações com o celular! 

O cachorro, apesar do sangue ruim, é extremamente dócil e bajulador para com os das suas relações. Só é um pouquinho inamistoso com estranhos, já tendo mordido o eletricista, o encanador, o leiteiro, o cara do gás, o da água, o da pizza, e outros que me esqueci agora. Já a gata, como toda fêmea, tem aquela pose de quem-quiser-que-venha-pedir, aliada à soberba que os gatos adquiriram no Egito Antigo. Em compensação, com freqüência vem carinhosamente me atrapalhar no computador. Quer teclar também. Mas só quando ela decide que quer e Penélope, sua preferida, não esta em casa.

Dizem que a criação de animais de estimação é capaz de diminuir o nosso estresse, aumentar os níveis de serotonina, e reduzir a pressão sanguínea, bem como diminuir os níveis de colesterol. Deve ser verdade, pelo sentimento sincero de amor que nos possui nessa relação. Amor desinteressado.

O nosso cachorro se chama Scooby e a gata Nenem, e estranhamente ainda não os vi hoje, será que se mataram? Vou verificar.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CRENÇAS MÁGICAS DOS JUDEUS PORTUGUESES


Diz uma antiga lenda, contada pelo Rabino Samuel Ibn Virgo em seu livro Tribo de Judá, que um clérigo estudioso, do sec. XI, contara a Afonso, Rei de Castela, que quando Nabucodonosor sitiou Jerusalém, veio-lhe em auxilio o Rei Hispanis, cujo nome corresponderia à Espanha. E quando Jerusalém caiu e houve partilha dos cativos, Hispanis recebeu o quarteirão da cidade, no qual viviam as famílias aristocráticas da Casa de David. Hispanis trouxe-as para a Andaluzia, instalando-as em Toledo, Granada e Sevilha. Complementando esses informes, o também rabino, Itzahak ben Gueint, dizia que vieram à Espanha duas famílias da casa real de David: a família Ben-Daud e a família Abrabanel. A primeira teria se estabelecido em Lisboa e a segunda em Sevilha. Se verdade, estas seriam as raízes dos judeus ibéricos. O profeta Obadias, (Ob.20) escreve: ... e os cativos de Jerusalém, que estão em Sefarade, possuirão as cidades do Negeve”(Ob. 20). Sefarade, na tradição judaica é a Espanha.
O tempo passou, vieram os romanos, os godos, os mulçumanos, e por lá permaneciam os filhos de Israel. Com a reconquista da Espanha das mãos dos mulçumanos e a adoção da política de conversão dos judeus ao catolicismo, veio também a Inquisição, que vai infernizar-lhes a vida de 1478 a 1834.
A desgraça cai sobre os judeus de Portugal, com o decreto de expulsão, promulgado pelo Rei D. Manuel I, em 1496. Para onde foram esses judeus ou cristãos-novos expulsos de Portugal? Foram para o Brasil, Turquia, Marrocos, norte da África, Síria, Holanda e Itália. Muitos permaneceram em Portugal, sendo batizados em pé.
Nos países e regiões onde predominava o Islamismo, como na Turquia, pela tolerância mulçumana, os judeus continuaram sabendo que eram judeus, não perdendo a memória de sua origem e de suas crenças. Nos países sob o jugo católico, como no Brasil, a pressão inquisitorial levou-os ao esquecimento de suas origens, sobrevivendo apenas algumas práticas até hoje presentes no nosso cotidiano. Vem a calhar, a propósito, o trabalho intitulado Tradições mágicas dos judeus otomanos, publicado no nº 37, ano X, da revista Morashá, de onde colho alguns exemplos, que parecem tirados do Nordeste brasileiro. Lá, praticados por judeus, aqui, por aqueles que esqueceram sua origem.
PARA EVITAR O MAU-OLHADO:
- Pendurar ferradura ou dente de alho na entrada da casa ou de uma loja.
SOBRE CRIANÇAS:
- Se alguém passasse sobre uma criança, acreditava-se que esta não cresceria mais.  Assim, se deveria passar de volta para que isso não ocorresse.
- Acreditar que os dentes de uma criança não cresceriam se ela se olhasse num espelho.
- A pessoa que notava pela primeira vez o dente, deveria dar um presente à criança.
PARA EVITAR PROBLEMAS EM CASA:
- Não se deve sentar no lugar do qual alguém se levantou, até que o lugar esfrie.
- Não deixar tesouras aberta.
- Não deixar sapatos virados para baixo.
SOBRE DINHEIRO:
- Se a mão direita coçar vai-se fazer pagamento; se for a esquerda vai-se receber dinheiro
- Se aparecer um circulo no fundo de uma xícara de café, vai-se receber dinheiro.
São apenas alguns casos, dentre tantos publicados naquele trabalho. Com ligeiras modificações, são de conhecimento geral na nossa região, pelo menos pelos mais velhos. Originam-se nos judeus portugueses e permanecem sendo praticados pelos seus descendentes, nas várias regiões do mundo para onde foram forçados a emigrar. Não sabemos mais quem somos, mas continuamos fiéis às antiqüíssimas práticas dos nossos ancestrais.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O TIJOLÃO DO PROF. MANUEL JAIRO BEZERRA




No período pré-vestibular, a galera costumava passar rapidamente no que chamávamos de “quartinho de Manoel”, localizado à Rua Marechal Floriano, Bairro Paredões. Era, na realidade, a oficina serigráfica de Manoel Neto de Souza. Frequentavam o “quartinho”, Francisco Bezerra Neto, Hélio Rodrigues de Souza, Maurício de Oliveira, Junior Palheiros que morava vizinho, Messias, Nicodemos dentre outros. Quando chegava por lá, por gozação, sempre dizia que o que estavam estudando não iria cair no vestibular. Chegava montado em minha velha bicicleta Göricke. Atrapalhávamos Manoel no seu trabalho cotidianamente, conversando sobre os mais variados assuntos. Lembro do dia em que o Helio chegou entusiasmadíssimo com uma música que ouvirá. Nada menos que “Na hora do almoço”, de Belchior.

Um dia, o assunto foi uma prova de Matemática do vestibular anterior da ESAM. Todos haviam resolvido as questões sem problemas e se gabavam do feito. Isolei-me por um momento com a prova e tomei um grande susto. Achei que não conseguiria resolver quase nenhuma das questões de Álgebra. Voltei apavorado para casa. No pouco tempo que ainda tinha, debrucei-me sobre o livro Curso de Matemática, de Manoel Jairo Bezerra, procurando recuperar o prejuízo. 

O livro de Manoel Jairo Bezerra era o melhor que tínhamos. Em suas mais de seiscentas páginas cobria toda a Matemática do segundo grau. Devido a esse grande volume era conhecido no Rio de Janeiro como “tijolão”, e em São Paulo, como “bezerrão”. O que poucos sabiam, porem, era que o autor nascera em Macau, aqui mesmo no Rio Grande do Norte. 

Não me envergonho de dizer que não tinha condições de adquirir, nenhum dos livros necessários, para uma boa preparação para o vestibular. Física e Química, estudava nos livros da Biblioteca Municipal; Biologia, em um livro de Manoel, quando estava disponível. Pouca dificuldade tinha com Português.  O “tijolão”, sim; o “tijolão” eu possuía. Ele me viera numa troca por um velho rádio receptor. Na indefinição profissional em que vivíamos, alguns de nós pensávamos em nos tornar radiotécnicos: Eu, Carlos Nunes, Abdenego (até hoje gosto de rádio). Foi com esse último que realizei a troca. Rádio pra lá, “tijolão” pra cá.

No início deste ano li por acaso, notícia velha de meses, que o professor Manoel Jairo Bezerra havia falecido em 2010, no Rio de Janeiro, aos 90 anos e vieram-me estas lembranças. 

Manoel Jairo nasceu em Macau, mas a força da necessidade o levou inicialmente a Natal, onde cursou o ginasial no Colégio Santo Antônio. Aos 15 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde com a ajuda de amigos fez o Curso Complementar para Engenharia da Escola Politécnica e em 1943 conclui o bacharelado de Matemática. Foi professor de matemática de vários colégios do Rio de Janeiro entre eles o Colégio Pedro II, o Colégio Metropolitano, o Instituto de Educação e o Colégio Andrews. Alem do “tijolão” escreveu outros 50 livros, e participou ativamente do Movimento da Matemática Moderna – MMM.   

Todos os frequentadores do “quartinho de Manoel”, que competiram naquele ano de 1973, passaram no vestibular: Manoel Neto de Souza, Hélio Rodrigues de Souza, Marcos Filgueira, Francisco Bezerra Neto e Mauricio Oliveira, os três últimos se tornaram professores da ESAM/UFERSA. Todos estudaram com o prof. Manoel Jairo Bezerra, através do seu grande livro. Essa crônica atrasada é homenagem e despedida àquele que dedicou a vida inteira à ciência dos números. 

Ah, ia me esquecendo. Depois do susto, minha maior nota no vestibular foi em Matemática.