sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ANGÚSTIA ALIMENTAR

Se os nossos ancestrais tiveram problemas com alimentação, foram de natureza diversa daqueles que enfrentam hoje os que a duras penas conseguem o pão cotidiano. É questão indigesta essa da alimentação, pois se tornou difícil escolher o que comer, considerando todas as informações disponíveis. Muitas surpresas se encontram à espreita, nos textos sobre o assunto. Para começo de conversa, todos os alimentos apresentam contra indicações. Incrível, mas é verdade Vejamos alguns exemplos.

O brasileiríssimo feijão, preferido por nove entre dez comedores do país, deve ser consumido com cautela. Primeiro porque, juntamente com frutas e verduras, a leguminosa esta mais enriquecida de resíduos tóxicos, que de nutrientes, e depois, algumas variedades, segundo se lê, apresentariam lecitinas e antitripsina, substâncias com alto poder tóxico que podem levar até a morte. A lectina é uma proteína que causa sérios danos nos mamíferos, como por exemplo a aglutinação de hemácias, e a antitripsina atua de modo a impedir a formação de algumas enzimas importantes para a digestão, entre elas a tripsina.Claro que o cozimento diminui o problema, mas não totalmente. Dispensemos o feijão. Imagine feijoada, cujos componentes adicionados fornecem colesterol e aditivos químicos suficientes para desencadear maléficos processos fisiológicos. Você só consegue piorar esse quadro acrescentando farinha de mandioca, incrementando o processo fermentativo e a produção de gases. Uma beleza!

Arroz, só se não estiver descascado, ou seja, serve apenas o famoso arroz integral, o único que nutre. Carne nem em sonho, ou melhor, pesadelo, pois estão cheias de anabolizantes, além de sua riqueza em putrecina, dentre outras substancias não menos assustadoras, que sugestivamente nos levam à certeza de estar deglutindo um delicioso cadáver.

Prosseguindo nesta linha de análise, pouca coisa vai sobrar. Leite de vaca, nem pensar. Cada mamífero na sua têta. Na vaca só o bezerro, pois as imunoglobulinas podem provocar reações alérgicas em espécies diferentes. Nas proteínas do leite de vaca existem mais de 30 sítios alergênicos, que podem causar problemas como diarréia, cãibras, sangramento gastrointestinal, anemia, erupções cutâneas, arteriosclerose, acne, leucemia, esclerose múltipla, artrite reumática e cáries dentárias. De contra peso o excesso de cálcio pode desandar em cálculos renais e biliares.

Agora imagine o perigo que corremos ao tomar leite com pão e margarina. Verdadeiro atestado de óbito. Além de aumentar a taxa de colesterol, o freguês ainda engole bromato de potássio, capaz de afetar seus registros mnemônicos. E não é só isso. O bromato, durante o cozimento da massa do pão, é convertido em brometo, que é cancerígeno. Quanto a margarina, não fique temeroso de que ocorra alguma explosão no seu manuseio, só porque na sua composição entra um explosivo – o ácido butil hidroxitolueno, parente próximo do TNT. Pelo menos até agora não há notícia de que tenha acontecido. Tampouco os terroristas andaram comprando grandes quantidades de margarina para construir bombas. Quem sabe o ácido sulfúrico, a soda cáustica, e o ácido benzóico, utilizados na fabricação evitem o evento explosivo.

Pelo que se conhece, nem o regime ovo-lacto-vegetariano escapa. Se o lacto pode causar alergia alimentar e cálculos, e os vegetais estão sem dúvida envenenados, poderiam os ovos nos salvar dessa verdadeira conspiração alimentar contra a humanidade? Ledo engano. Também não pode. Os caipira são verdadeiras bombas de colesterol e os de granja nem ovos são, mas óvulos, riquíssimos, segundo se afirma, de antibióticos e hormônios. Agora se o caro leitor desejar se aventurar, por favor, não coma com sal, pois a este se atribui um grande número de males, sendo enfadonho listá-los neste momento.

Há, porém, segundo me asseguram, uma solução simples e ao alcance de todos: a mastigação. Sim, afinal, para que você quer os dentes que sobraram depois de tanto comer açúcar? O ideal é mastigar de 100 a 150 vezes o bocado que se tem na boca. Não se preocupe se não conseguir no início. Espelhe-se nos Macrobióticos. Há quem já tenha conseguido mastigar 1300 vezes um pedaço de cebola. Pela teoria, depois de 150 vezes, não interessa mais o tipo de alimento, pois estes se transmutam em qualquer elemento de que nosso corpo necessite. Ainda bem que podemos resolver, à dentadas, esse imbróglio alimentar que nos angustia.

domingo, 2 de outubro de 2011

SERIA O LIVRO DE JÓ A DESCRIÇÃO DE UM PROCESSO INICIÁTICO?

Certamente o livro de Jó tem características especiais. É classificado pelos estudiosos da literatura bíblica entre os livros sapienciais do Tanach (Velho Testamento) e como tal, não trata dos temas veterotestamentários tão caros a Israel como a Eleição, a Aliança ou a Lei, mas de uma experiência pessoal. É também o único escrito em forma de diálogo. 

Os que supõem que tenha sido escrito durante o Exílio Babilônico, vêem essa excepcional obra, como uma revisão da teologia da retribuição, espécie de toma lá, dá cá, entre Deus e o povo de Israel, que havia perdido tudo, inaugurando um novo pensamento sobre o relacionamento entre o homem e Deus. Na teologia cristã, o Justo Jó é visto como exemplo de paciência perante a adversidade, de persistência na fé (veja-se Tiago, 5:11).

Dentro do enfoque teológico, dois importantes pontos podem ser destacados no livro: satan trabalha em conjunto com Deus, como um dos seus anjos, ao contrário do que ocorrerá no Novo Testamento, onde será retratado como uma das faces da moeda (a outra é Jesus); e a atribuição de tudo a Deus, tanto o bem como o mal, o que é coerente com o fato de que satan ainda não era nome próprio e não competia com Deus pelas almas humanas.

Norman Gottwald em Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica, 1988, faz uma leitura sociocultural da Bíblia, não se prendendo aos possíveis aspectos religiosos do texto. Para ele, a real intenção do autor do livro de Jó seria quebrar o domínio do moralismo e dogmatismo, que então limitava a sabedoria à mistificações, satisfazendo-se em demonstrar que existe sofrimento inocente, cuja explicação, às vezes, está alem de nossa compreensão.

Do ponto de vista psicológico, é interessante notar o que diz Geraldo Moog (1980), não apenas sobre esse livro bíblico, mas sobre toda a saga israelita, que compara ao processo psicanalítico de libertação do determinismo infantil. A seqüência psicanalítica passaria pelas seguintes etapas: desestruturação, encontro emocional e uma reestruturação da personalidade. Israel desestrutura-se tentando se libertar do Egito (sua infância) tem um encontro emocional com Deus no deserto e finalmente alcança a terra prometida. 

Edward F. Edinger (Bíblia e Psique, 1990) concorda com esse tipo de leitura, sugerindo que o conteúdo bíblico, foi, ao longo dos séculos, selecionado pela psique coletiva, apresentando para nós, um compêndio extraordinariamente rico de imagens que representam encontros com o numinoso.

Essa sugestão de leitura psicológica da Bíblia vem de Carl Jung, que em uma de suas obras concentra-se em Jó (Resposta a Jó, 1954) interpretando a narrativa, como se referindo a um processo de crescimento individual, em que o ego em segurança (Jó com suas posses, família e saúde), sofre abrupta mudança (ação de Deus e de satan, como aspectos de uma mesma entidade – o Self), gerando uma crise no individuo. A nova situação causa um mergulho no inconsciente, de onde emergem as figuras dos três amigos com quem dialoga, e finalmente ocorre o que Jung chama de individuação - encontro com o numinoso, o Si-mesmo - que leva Jó a dizer: Eu te conhecia só de ouvir. Agora, porém, meus olhos te vêem (Jó,42,5).

Bem antes dessas interpretações, Helena Petrovna Blavatsky em sua obra, Isis sem véu, escrito em 1877, entendia o livro como a descrição de um processo iniciático, uma narrativa alegórica dos mistérios e da iniciação de um candidato em uma instituição esotérica. O sofrimento do inocente e justo Jó, corresponderia às provas que purificam e que abrem os portais do conhecimento, do encontro da palavra perdida, que não seria outra coisa que a descoberta de Deus dentro de cada um de nós, objetivo de todo processo.

A junção desses dois conceitos – individuação e iniciação – é feita ousadamente por Jean-Luc Maxence, em Jung é a Aurora da Maçonaria, publicado em 2010 ao afirmar que:
 
Para além da questão de saber se a individuação é uma iniciação, e se a iniciação, um processo de individuação, trata-se aos nossos olhos de reconhecer que as duas posturas evocam um método de regeneração do individuo...


Fazendo jus ao mistério que cobre toda a Bíblia, o livro de Jó comporta assim, várias interpretações talvez correspondendo aos níveis de compreensão sugeridos pela Cabala, que fala de quatro níveis de aprofundamento do texto: Pshat (o sentido literal), Remez (o sentido alegórigo), Drash (o sentido ético ou religioso) e Sod (o segredo), a alma da Torah, excluindo qualquer leitura simplista do chamado Velho Testamento. Os quatro níveis, ou camadas, corresponderiam ao aperfeiçoamento espiritual por que passam os que se dedicam a estudar a Torah, o que não deixa de ser também uma sequência iniciática.

domingo, 25 de setembro de 2011

ITALIANOS DA FAMÍLIA MARTINI EM MOSSORÓ

Pedro Martini, primeiro filho de Angelo Martini.
Raimundo Nonato da Silva, escritor martinense, escreveu, na série Minhas Memórias do Oeste Potiguar, o livro Estrangeiros em Mossoró e lá registrou a presença de vários italianos ou descendentes que por aqui passaram desde tempos remotos. São doze verbetes incluindo atores, padres e outros com atividades diversas em Mossoró. Dentre eles menciona Antonio italiano e ao referir-se a ele, Raimundo menciona também a figura curiosa da velha italiana, de fala pouco compreensível, pela mistura de português e italiano que utilizava. Penso que ainda alcancei essa velha, ou outra figura feminina da família, com características semelhantes.
 
Fazendo esquina com a Igreja São José, localizada no Bairro do mesmo nome, havia uma casa, muros caídos em algumas partes, possibilitando a passagem da meninada da rua da frente para a rua dos fundos, sem dificuldades. Por lá se aboletou um grupo de italianos vindos, não sabíamos de onde, mas que despertou a nossa curiosidade infantil. Lembro de uma velha, cabelos grandes, autoritária, que falava pelos cotovelos, numa algaravia velocíssima, totalmente incompreensível para mim. Havia vários deles habitando naquela casa. Deixaram descendentes em Mossoró. Mais adiante iria conhecer de perto um deles, seu Raimundo Italiano. Passava religiosamente, à tardinha, em frente à minha casa, na Rua Delfim Moreira, a caminho da Padaria ABC, falando alto e de forma amistosa com todos. Por conversas com meu pai, soubera que nós descendíamos dos Burlamacchi, também italianos, o que nos irmanava.

Agora, voltei ao mesmo local para investigar, que família seria aquela, de que região da Itália seria originária, e colher informações sobre os descendentes. Indicaram-me a senhora Maria Edna, viúva de Raimundo Martins (Dodoca), descendente do clã, moradora na Rua Piano.

A rua mudou de nome recentemente passando a denominar-se Raimundo Martins de Oliveira, homenageando essa velha família italiana que se estabelecera nas proximidades. O Martins do nome é aportuguesamento de Martini, informou-me D. Maria Edna. Seriam originados de Nápoles. De princípio teriam se estabelecido no centro da cidade e posteriormente naquele lugar onde os encontrei quando criança. Martini seria derivado do latim Martinus, presente, sobretudo no centro-norte da Itália. 

Outra pessoa da família, D. Antonia Martins, forneceu preciosas informações genealógicas sobre essa gente. Angelo Martini seria o patriarca do grupo, marido da velha italiana chamada Maria, falecida centenária. Teriam sido pais de dois filhos, Pedro Martins de Oliveira e Antonio Martins de Oliveira. O portuguesissimo sobrenome Oliveira parece indicar cruzamento anterior com gente brasileira, ou aportuguesamento de um outro apelido italiano que tivessem. O Dicionário dos Sobrenomes Italianos, de Ciro Mioranza registra a existência de Olivier, Oliviera, Olivieri e Oliviero, muito próximos do português. Os primeiros descendentes eram apelidados de Italianos (Antonio Italiano, Raimundo Italiano, Francisca italiana, etc.), quase se transformando em um novo sobrenome. Segue um curto esboço genealógico dessa família napolitana que deixou raízes em nossa terra.

F1 - Pedro Martins de Oliveira, o primeiro filho c.c. Rita Bertoldo da Silva, pais de:
N1- Ramiro Martins de Oliveira, que foi pastor da Igreja de Cristo c.c. Francisca Rodrigues, de cujo enlace nasceram dez filhos. É nome de Rua no Bairro Aeroporto.
N2 - Raimundo Martins de Oliveira c.c. Guilhermina, com vários descendentes, entre eles outro Raimundo Martins, que foi casado com Maria Edna, primeira informante com descendência. Há membros desse ramo estabelecidos em Recife.
N3 - João Martins de Oliveira com descendentes em Mossoró e Grossos.
N4 - Marieta Martins de Oliveira c.c. Manoel Alves, pais de Amélia, que foi casada com Cristovão Gurgel da Frota.
N5 - Maria Martins de Oliveira, com descendentes na Bahia.
N6 - Francisca Martins de Oliveira c.c. Sebastião Medeiros, pais de Romualdo, Ranilson e Rosália. Lembro de Sebastião prestando serviços à ESAM, como pintor, falando que era casado com uma italiana. Seu filho Romualdo seguiu-lhe os passos. Ajudou-me a encontrar a casa de D. Antonia italiana, para a recuperação desses dados.
N7 - Fausta Martins de Oliveira c.c. Odilio Pinto,nascido em 13 de agosto de 1920, escrivão e poeta.
N8 – Francisca Martins de Oliveira c.c. Antonio Joaquim da Costa (Rouxinol), pais de D. Antonia Martins, informante, que foi casada com Jorge Silvério de Souza, com os seguintes filhos: Rogéria Martins de Souza, Jorge Henrique de Souza, Luiza Maria Martins de Souza e Antonia Flávia Martins de Souza. De outro relacionamento teve D. Antonia a Regina Martins Dantas.

F2 – Antonio Martins de Oliveira, segundo filho de Ângelo c.c. Luiza Pinheiro e foram os pais de: Adauta, Altina, Alfredo, Valter, Maria Luiza (casada com José de Almeida) e Antonio Martins, falecido durante a II Guerra Mundial.
         
Manuel Correia de Andrade escreveu o livro A Itália no Nordeste, editado em 1992, recolhendo informações sobre as famílias de origem italiana no Rio Grande do Norte, citando os Cicco, os Nesi, os Filizola, os Simonetti, os Pintolli, os Romano, os Farachi, os Toselli e os Babini. Faltaram várias outras famílias, dentre elas essa dos Martini, que agora registro para a história.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O MUNDO ALÉM DO NOSSO BAIRRO

Robert Kennedy em Natal
Quando eu tinha 14 anos meu pai fez uma puxada na nossa casa, situada à Rua Delfim Moreira, bairro São José. Era uma casa, como se dizia então, com frente de tijolo e fundo de taipa também chamada de pau-a-pique. A puxada era uma extensão do final da  casa, formando uma nova área, onde posteriormente instalamos a cozinha. Funcionava também como área de descanso, uma riqueza. Lembro que em um ano de muitas chuvas, o lado leste da casa permaneceu por alguns dias protegido apenas pela armação de madeira, enquanto nós, qual abelhas, tamponávamos as brechas com barro, lutando contra as águas das chuvas que teimavam em cair ininterruptamente. 
 
As mudanças realizadas em nossa casa, com o sacrificado salário do meu pai, eram sempre recebidas por mim com muita alegria, era sempre um passo adiante. Como quando o piso de tijolo foi substituído por cimento queimado, ou quando a luz elétrica foi instalada. Ainda lembro a primeira noite com luz elétrica, uma verdadeira explosão de luz. A lamparina havia se aposentado para sempre das minhas leituras. 

Naquele dia 23 de novembro de 1963, aos 14 anos, como de costume, devo ter passado o dia jogando futebol em algum lugar do bairro, com um poste de iluminação e outro servindo de baliza e limitando nosso campo. Minha mãe, sempre reclamava que eu só aparecia em casa para comer e dormir, e sua reclamação tinha fundo de verdade. Não lembro a hora exata, mas sei que era noitinha, quando ao mesmo tempo em que admirava o final da construção da puxada, recebia a notícia do assassinato de John F. Kennedy. Naquela idade, meus sentimentos sobre fatos dessa natureza, acompanhavam os sentimentos do meu pai, e estes eram de profunda tristeza. Lembro de que ele cogitava que a notícia poderia não ser verdadeira. Quedei-me também triste e permanecemos com os ouvidos colados ao radio, que confirmava o trágico fim do presidente americano. Por trás da tragédia estaria a URSS e isso iria facilitar o avanço comunista por essas partes do mundo.

Os americanos desenvolviam, então, o programa de assistência denominado Aliança para o Progresso, idéia de Kennedy, visando evitar a influência comunista na América Latina e que seria extinto em 1969 por Richard Nixon. Através do programa eram distribuídos remédios, leite em pó, trigo burgol, que nós chamávamos de bugu, massa de milho, às vezes queijo, às vezes roupas usadas, para as famílias carentes da região. Pode-se dizer que Natal foi bastante beneficiada pelo programa. Em 1963 o Governador Aluizio Alves viajou aos Estados Unidos para negociar diretamente com Kennedy, a construção de casas populares, o que redundou em importante bairro da nossa capital, denominado Cidade da Esperança. Da mesma fonte jorrou também o financiamento para a construção da Escola Estadual Presidente Kennedy, inaugurada por ocasião da visita à Natal, em 1964, do senador Robert Kennedy, irmão do infelicitado presidente. Um amigo meu, com alguma consciência política, dizia que tudo aquilo era feito com o dinheiro que eles haviam roubado do nosso país. 

A figura do jovem presidente americano já estava firmada no nosso imaginário, desde a crise dos mísseis em 1962. Lembro das nossas conversas de garotos, o nosso receio de uma conflagração nuclear, as discussões sobre quem seriam mais inteligentes, os russos ou os americanos. Um dos amigos dizia que o americano havia feito um fio muito fino e desafiou o russo a fazer algo mais fino; o russo teria feito um orifício no fio tornando-o oco...e por aí iam as nossas científicas ponderações e o medo do fim do mundo, que parecia tão próximo, e nós tão jovens para tanta tristeza. Seu Manoel Pedro, bodegueiro, com verve e ignorância, dizia que quando soubesse que o fim do mundo já vinha chegando ali pelo Assú, ele faria um monte de besteiras que nunca havia feito.

Vivíamos uma adolescência absolutamente normal de meninos pobres,escola pela manhã, jogo de futebol pelas ruas no resto do dia, torcendo pelo time do bairro – o Salinista, e as noites na praça da Igreja São José onde uma televisão pública, vez por outra, atacava de Tom Jones, cantando Pussycat, It’s Not Unusual, Dalilah e outras.

Aos poucos tomávamos conhecimento de que estávamos mergulhados no mundo e o que afetava outros países, também nos afetava. As ações e traumas da grande nação do norte tinham repercussões no distante Rio Grande do Norte. Pearl Harbor em 1941,com o posterior envolvimento do Brasil na II Guerra, levando à construção em Natal, da maior base americana fora dos Estados Unidos, e John F. Kennedy com a Aliança para o Progresso e a dor de sua morte prematura. Definitivamente o mundo ia além do nosso bairro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PELOS CAMINHOS DO MISTÉRIO: DE POE A DAN BROWN

Tenho oscilado, nas minhas leituras atuais, entre os refinados Borges e Eco, e o livre, direto e obsceno Bukowski. Quando me encho da erudição rebuscada, passo para a liberalidade total do velho Buk, the old dirt man. Hoje foi dia de Borges. Em Cinco Visões Pessoais, o grande escritor argentino se detém a analisar o conto policial e o criador do gênero, Edgar Allan Poe. Aproveita Borges para questionar a existência dos gêneros literários e para reiterar a idéia de que a obra estética requer a integração leitor/texto, para só então existir. Nesse caso, minha participação no seu texto, foi enxergar os trechos referentes aos primeiros detetives dos contos policiais como Charles Auguste Dupin, do conto Os Crimes da Rua Morgue.

Fui leitor cativo de romances e contos policiais ou rocambolescos, durante a adolescência. Na Biblioteca Municipal de Mossoró encontrei As Aventuras de Rocambole, de Ponson Du Terrail. O vai e vem na vida dos personagens, as peripécias e imprevistos despertaram paixão fulminante. Seguiu-se Raffles, o mestre do disfarce, ladrão, cavalheiro e aristocrata e depois Arsene Lupin criação de Maurice Leblanc inspirado em Raffles, com caráter similar à aquele e igualmente rocambolesco. Estes últimos conheci em livros da biblioteca do saudoso Dr. Lavoisier Maia, em parte transferida, pela sua morte, para a casa de dois velhos amigos de infância, os irmãos Gideval e Gidevan Ribeiro. Esses autores foram contemporâneos de Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes (E. W. Homung, criador de Raffles era seu cunhado). Achava fantástico o poder de dedução de Holmes, a partir do menor indício presente. 

O Dr. Lavoisier gostava de histórias de detetives, pois foi naquele resto de sua biblioteca que conheci também Maigret, personagem criada por George Simenon, de cujas histórias nunca gostei, talvez pelo estilo seco e conciso do autor. Também por lá fui apresentado a Perry Mason, advogado que terminava sempre bancando o detetive, criação de Earl Stanley Gardner, criminalista americano. Os títulos dos livros de Earl começavam sempre da mesma maneira: O Caso da Jovem Arisca, O Caso da Noiva Curiosa, O Caso das Pernas da Sorte, etc.
 
Também as revistas Mistério Magazine e X-9 foram fontes de contos de mistério, na minha juventude, alguns deles, os mais deliciosos, contados por Ellery Queen, misto de escritor e detetive.

Nenhum desses, porém, se compara, para mim, a Agatha Christie, a rainha do crime, e seu imortal Hercules Poirot (Talvez por machismo, nunca gostei de Miss Marple). Na década de 80 a Record publicou uma coleção de suas obras. Comprei quase todas, mas já não senti a mesma emoção na sua releitura. Fiz doação a uma aluna apaixonada por aquelas histórias.

Houve, e há preconceito contra o gênero, rebaixando-se seus autores a subliteratos. Veja-se a opinião do crítico Otto Maria Carpeaux:
“Não adianta condenar os romances gótico e policial porque lhes falta o valor literário. São expressões legítimas da alma coletiva, embora não literárias, e sim apenas livrescas de reações sociais, no caso, desejos coletivos de evasão. 

Foi curioso encontrar, em uma das reedições da Coleção Mossoroense, da revista Meeting, publicada em 1953, uma defesa apaixonada do romance policial, feita por Rafael Negreiros. Observa muito bem Rafael que o atrativo de alguns grandes romances como Crime e Castigo, A Cartucha de Parma e outros, em parte se deve à feição detetivesca da obra. 

Será que o mau humor do mundo acadêmico, acerca das obras de Dan Brown, se deve a isso? Seus livros são chamados de guias turísticos, queijos suíços, pelos furos que conteriam, que são alavancados apenas pela força do marketing editorial, que tratam de temas polêmicos e outras coisas do mesmo jaez. Que bobagem, são apenas escritos de natureza detetivesca, feitos para divertir, apresentando um Sherlock diferente, especialista em simbologia. Mistérios, enigmas e suspense para aquele tipo de leitor criado por Edgar Allan Poe, caracterizado por Borges como alguém que lê com incredulidade, com desconfiança especial, louco por uma surpresa a cada página, direi eu.

Assim como li aquelas famosas obras de mistério, li também Anjos e Demônios, O Código da Vinci e O Símbolo Perdido e confesso que foram leituras quase ininterruptas. Portanto, livre do pudor de alguns homens de letras, incluo meu fictício colega, professor Robert Langdon, entre aqueles velhos detetives acima citados. Suas aventuras são de tirar o fôlego. Quando eu desejar erudição, volto a Borges, ou a Eco... e, em estado de plena liberdade, quando eu não quiser entender nada, leio Joyce.

domingo, 28 de agosto de 2011

A EDIÇÃO MOSSOROENSE DA NOBILIARQUIA PERNAMBUCANA

A história da publicação da obra de Borges da Fonseca, pela prestimosa Coleção Mossoroense, começa com a minha paixão por genealogia e se concretiza no amor de Vingt-un Rosado pelas coisas da cultura e também pelo mesmo assunto.
Dentre as grandes obras genealógicas publicadas no nosso país, três são clássicas: a Nobiliarquia Paulistana, História e Genealógica, escrita por Pedro Taques de Almeida Paes Leme; Catálogo Genealógico das Principais Famílias, da autoria de frei Antonio de Santa Maria Jaboatão e a notável Nobiliarquia Pernambucana, de Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca.

A obra de Pedro Taques teve reedição por iniciativa da Editora Itatiaia Ltda, em colaboração com a Editora da Universidade de São Paulo,em 1980, e o governo da Bahia, na gestão de João Durval Carneiro, republicou o trabalho de frei Jaboatão, com introdução e notas de Pedro Calmon, em 1985. Bem antes,em 1946, Afonso Costa já tratara da obra de Jaboatão, adaptando-a e desenvolvendo alguns tópicos. Faltava a Nobiliarquia Pernambucana, talvez a mais importante para os estudiosos da genealogia do Nordeste.

Na busca por minhas raízes genealógicas, primeiro pesquisei na literatura local e regional, principalmente na Coleção Mossoroense, na obra de Francisco Fausto, que depois foi desenvolvida por Lauro da Escossia no livro As Dez Gerações da Família Camboa, nas publicações de Olavo de Medeiros Filho, e por fim, na importante, porém confusa obra do tabelião paraibano Sebastião de Azevedo Bastos, intitulada No Roteiro dos Azevedos e Outras Famílias do Nordeste, publicação de 1954. 

Embora o prof. Vingt-un Rosado possuísse uma rica bibliografia genealógica, na qual se incluíam todos os exemplares do Anuário Genealógico Latino e do Anuário Genealógico Brasileiro, obras de Salvador de Moya, faltava a fonte principal para a minha pesquisa – a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca, a fim de tentar fazer a ligação dos meus ancestrais com os primeiros troncos baianos e pernambucanos.

Diante da minha insistente procura por essa obra grandiosa, Vingt-un sugeriu-me que consultasse, dentre os genealogistas meus conhecidos, se algum a possuía, para que, a partir desses exemplares fizéssemos uma nova edição facsimilar pela Coleção Mossoroense. Barros Leal, insigne médico e genealogista cearense possuía apenas um volume que disponibilizava, O Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico Pernambucano apenas facultava para consulta, e nada mais encontrei. Produzida em 1748 em quatro volumes manuscritos, a obra de Borges da Fonseca teve publicação parcial pela Revista deste citado Instituto Pernambucano, e integral, em 1935, pelos Anais da Biblioteca Nacional, em dois volumes, com prefácio de Rodolfo Garcia.

Estávamos nesse pé quando, ao retornar de uma de suas viagens, Vingt-un me fez a grande surpresa de me apresentar àquela tão sonhada publicação de 1935. Comprara por R$ 400,00, os dois volumes publicados por Garcia. Emprestou-me de imediato e logo em seguida deu início a sua reprodução facsimilar. Procurou-se, a partir dos dois volumes daquela edição, recuperar a divisão inicial dos manuscritos em quatro volumes. Sem dúvida, pelo valor e raridade da obra, ficou a Coleção Mossoroense mais enriquecida, ao contar com a Nobiliarquia Pernambucana entre seus títulos publicados, e os genealogistas e historiadores, agradecidos por essa iniciativa.

Por solicitação de Vingt-un, Affonso Romano de Sant’Anna, então presidente da Fundação Biblioteca Nacional, enviou uma relação de Bibliotecas e outras entidades que deveriam receber exemplares da nova edição. E assim, a história das publicações da Nobiliarquia Pernambucana passou a ter, também, um capítulo mossoroense, sob a chancela da Escola Superior de Agricultura de Mossoró. 

Atualmente, a publicação pode ser acessada em vários sites e a Fundação Vingt-un Rosado ultima também uma edição nesse formato, a ser disponibilizado para download gratuito, no Acervo Virtual Osvaldo Lamartine de Faria. É a democratização do conhecimento.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A FAMÍLIA ROCHA E A POSSE DA FAZENDA SANTA LUZIA


Os primeiros elementos da família Rocha, que documentalmente se relacionam com as terras de Santa Luzia, foram Jerônimo e Isabel da Rocha, que juntamente com mais seis suplicantes, solicitam sesmaria pedindo nada menos que cinco léguas de comprido por outras tantas de largo, para cada um deles, ao longo do rio Upanema, valendo dizer rio Mossoró. A petição foi deferida com a redução para três léguas por uma, para cada um, mas por desaproveitamento, caiu em comisso.

Luis da Câmara Cascudo estudou a seqüência das possessões registrando como mais antigo dono da Fazenda de Santa Luzia, o Capitão Baltazar da Rocha Bezerra, em 1728. Filho de outro de mesmo nome e de Maria Barbalho Bezerra, ambos paraibanos, descenderiam de outro Baltazar da Rocha Bezerra, que Borges da Fonseca diz que casou na Paraíba com gente da família dos Barbalhos, Morgados da Paraíba.

Decifrando, porém, velhos documentos referentes ao Terço dos Paulistas, que deram combates aos índios na chamada Guerra dos Bárbaros, o historiador Olavo de Medeiros Filho fez recuar a posse, ao sogro de Baltazar, o Capitão Teodósio da Rocha, que em 1712, recebia ordem do Sargento-Mor José de Morais Navarro, para que, juntamente com o soldado Bonifácio da Rocha, seu filho (conforme João Felipe Trindade)... marchem logo dentro de cinco dias, para sua fazenda do Monxoró...

O próximo a deter a posse da fazenda, ainda segundo Câmara Cascudo, foi Teodorico da Rocha Bezerra, antes de 1739. A posse teria vindo a este por compra ou seria sucessão? Sabe-se que este último foi pai de pelo menos dois filhos: Antonio Vaz Gondim e Damião da Rocha, que, segundo Francisco Fausto, teriam efetivamente habitado na região, ocupando terras ao norte da fazenda, indo até o Góis.
Mais informações se colhem sobre essas terras e personagens, na carta de sesmaria concedida a Baltazar Gonçalves dos Reis, em 1763. Dizia o suplicante:
que elle é senhor e possuidor de parte de um sítio de terra chamado a lagoa do Goes, na ribeira do Mossoró, distrito dessa Capitania, com três léguas de comprido e uma de largo, que ouve por herança de seu tio, Jeronimo da Silva e este o ouve por dote que lhe fez seu sogro Teodósio da Rocha ou seu tio Antonio Vaz Gondim, o qual havia tirado por sesmaria pelo governo desta Capitania.
A confirmar essa posse, temos o documento divulgado por Vingt-un Rosado, referente ao pedido de terras feito por José de Oliveira Leite, em 1754, na mesma quadra da Fazenda de Santa Luzia. Sobre essa solicitação, diz o Escrivão da Fazenda, que, revendo o Livro Sétimo de Registro de Sesmaria, encontrou o seguinte:
...consta haver dado de sesmaria a Antonio Vaz Gondim e seu irmão, Damião da Rocha, cinco léguas de comprido e uma de largo no rio Mossoró da parte do Norte, pegando das testadas da terra de seu pai, Capitão Teodorico da Rocha, para baixo que é o sitio chamado Santa Luzia...

Como José de Oliveira Leite não especificou o exato local da terra que solicitava, houve a preocupação por parte daquele Escrivão, de que essas viessem a coincidir com as posses já firmadas anteriormente.

Parece haver parentesco entre José de Oliveira Leite e Teodósio da Rocha, e talvez tenha sido essa a motivação para sua fixação em Mossoró, onde foi a primeira autoridade da Ribeira, por carta patente passada pelo Capitão-Mor da Capitania do Rio Grande do Norte, Pedro de Albuquerque, em 1755. Interessa, a respeito desse parentesco, o que se encontra na carta de sesmaria concedida a Antonio Pereira de Albuquerque, Teresa de Oliveira e Manuel Roriz, datada de 1709. As terras pretendidas eram as mesmas situadas... na ribeira do Mossoró, da parte do Norte do Rio dela... e foi preciso dar vistas aos autos da concessão anterior a Teodósio da Rocha:
...vistos os autos como por elles se mostra ser concedido Teodozio da Rocha e sua filha Teodosia e ao Capitão João Leite de Oliveira (...) toda a terra que se achar da Costa do mar pela Ribra. assima do Mossoro até donde o gentio chama de sete estrelo das partes do Norte e se mostrar que os justificantes Theodozio da Rocha e sua filha Teodosia de Oliveira Leite...   

Esclarece o referido documento, que a data e sesmaria lhes pertenciam por devolutas, e surge aí a figura de quem fora o anterior dono da terra, ou co-herdeiro dela:
...e como sendo outro citado Antonio da Rocha Pita para alegar e mostrar o dicto que tivesse contra esta data e sesmaria e não fizesse, o hei por excluso da terra...

Eis então Teodósio e João Leite de Oliveira com posse anterior a 1709. O prof. João Felipe da Trindade cita o Capitão João Leite de Oliveira, de idade de trinta e cinco anos em 1699, como filho do Capitão Mor Antonio Vaz Gondim. João, por sua vez, foi pai, dentre outros de Clara, batizada em 12 de Abril de 1710, tendo como padrinhos, José Ferreira e Felizarda Filgueira (essa filha de Teodósia da Rocha e neta de Teodósio da Rocha)

A partir de Damião e Antonio Vaz Gondim, teria havido solução de continuidade, com posse da terra, ao norte de Mossoró, por elementos de outras famílias? Acreditamos que não. Na primeira metade do Sec. XVIII coincidência ou não, ainda é um Rocha, Alexandre de Souza Rocha, que detém a posse da Ilha de Dentro e também de partes de terras no Góis. Ele e sua esposa, Leocádia Barbosa Vasconcelos, ambos naturais de Goiana, Pernambuco, estabeleceram-se por pouco tempo no Seridó, e definitivamente, nos citados lugares da Ribeira. Diz Francisco Fausto: Do Seridó mudou-se o casal para o sitio Ilha de Dentro na Ribeira do Mossoró onde fixou residência...

Supomos, não gratuitamente, que Alexandre pertença a essa mesma grei dos Rochas, que por todos esses séculos tem mantido a posse daquelas partes de terra. Igualmente da gens, seria Jerônimo da Rocha Tevez, natural da Ilha Terceira, que faleceu quando se dirigia, a cavalo, do Ceará para Mossoró, cuja filha, Quitéria Francisca de Oliveira, viria a se casar, em 1774, com José de Góis Nogueira, Comandante da Ribeira do Mossoró, filho de Manoel Nogueira de Lucena e de Firmiana Rosa dos Prazeres. Para Francisco Augusto, genealogista cearense, Jerônimo teria sido casado com Ana Maria de Albuquerque.

Por compra ou por herança, serão, na continuação, vários os possuidores de partes de terras nessa região, sendo digno de nota, a declaração que faz Manoel Francisco Rebouças, registrando, ainda em 1855, a presença de um Rocha Bezerra com posse na área.

Manoel Francisco Rebouças, natural e morador na freguesia de Nossa Senhora do Rosário da cidade do Aracaty,casado, declara que possui duas sortes de terras no sitio Tibau da freguesia da Senhora Santa Luzia, sendo oitenta e três braças e meia por compra a Bernardino da Rocha Bezerra e cento e oito e meia houve-as por legitima de minha falecida mãe, Tereza Rodrigues de Jesus tendo as mesmas terras uma légua de fundo – Mossoró,dezoito de dezembro de mil oitocentos e cinqüenta e cinco (1855)...

Alexandre e Leocádia deixaram filhos, dos quais, até agora, apenas três podemos perfilhar: Alexandre de Souza Rocha, natural do Seridó, casou em 1774 com Josefa Maria Calada, filha dos mesmos Manoel Nogueira de Lucena e Firmiana Rosa dos Prazeres; Matias Aires Delgado, natural de Russas/CE, casou com Francisca Inácia de Oliveira, filha de Francisco Falcão de Souza e de Helena Maria de Oliveira, e Eufrásio Alves de Oliveira, natural de Goiana, que Francisco Fausto assegura que morava no Upanema, na segunda metade do Sec. XVIII, casado com Quitéria de Oliveira e foram o tronco dos Alves de Oliveira e Alves de Souza, da cidade de Mossoró.