quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PELOS CAMINHOS DO MISTÉRIO: DE POE A DAN BROWN

Tenho oscilado, nas minhas leituras atuais, entre os refinados Borges e Eco, e o livre, direto e obsceno Bukowski. Quando me encho da erudição rebuscada, passo para a liberalidade total do velho Buk, the old dirt man. Hoje foi dia de Borges. Em Cinco Visões Pessoais, o grande escritor argentino se detém a analisar o conto policial e o criador do gênero, Edgar Allan Poe. Aproveita Borges para questionar a existência dos gêneros literários e para reiterar a idéia de que a obra estética requer a integração leitor/texto, para só então existir. Nesse caso, minha participação no seu texto, foi enxergar os trechos referentes aos primeiros detetives dos contos policiais como Charles Auguste Dupin, do conto Os Crimes da Rua Morgue.

Fui leitor cativo de romances e contos policiais ou rocambolescos, durante a adolescência. Na Biblioteca Municipal de Mossoró encontrei As Aventuras de Rocambole, de Ponson Du Terrail. O vai e vem na vida dos personagens, as peripécias e imprevistos despertaram paixão fulminante. Seguiu-se Raffles, o mestre do disfarce, ladrão, cavalheiro e aristocrata e depois Arsene Lupin criação de Maurice Leblanc inspirado em Raffles, com caráter similar à aquele e igualmente rocambolesco. Estes últimos conheci em livros da biblioteca do saudoso Dr. Lavoisier Maia, em parte transferida, pela sua morte, para a casa de dois velhos amigos de infância, os irmãos Gideval e Gidevan Ribeiro. Esses autores foram contemporâneos de Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes (E. W. Homung, criador de Raffles era seu cunhado). Achava fantástico o poder de dedução de Holmes, a partir do menor indício presente. 

O Dr. Lavoisier gostava de histórias de detetives, pois foi naquele resto de sua biblioteca que conheci também Maigret, personagem criada por George Simenon, de cujas histórias nunca gostei, talvez pelo estilo seco e conciso do autor. Também por lá fui apresentado a Perry Mason, advogado que terminava sempre bancando o detetive, criação de Earl Stanley Gardner, criminalista americano. Os títulos dos livros de Earl começavam sempre da mesma maneira: O Caso da Jovem Arisca, O Caso da Noiva Curiosa, O Caso das Pernas da Sorte, etc.
 
Também as revistas Mistério Magazine e X-9 foram fontes de contos de mistério, na minha juventude, alguns deles, os mais deliciosos, contados por Ellery Queen, misto de escritor e detetive.

Nenhum desses, porém, se compara, para mim, a Agatha Christie, a rainha do crime, e seu imortal Hercules Poirot (Talvez por machismo, nunca gostei de Miss Marple). Na década de 80 a Record publicou uma coleção de suas obras. Comprei quase todas, mas já não senti a mesma emoção na sua releitura. Fiz doação a uma aluna apaixonada por aquelas histórias.

Houve, e há preconceito contra o gênero, rebaixando-se seus autores a subliteratos. Veja-se a opinião do crítico Otto Maria Carpeaux:
“Não adianta condenar os romances gótico e policial porque lhes falta o valor literário. São expressões legítimas da alma coletiva, embora não literárias, e sim apenas livrescas de reações sociais, no caso, desejos coletivos de evasão. 

Foi curioso encontrar, em uma das reedições da Coleção Mossoroense, da revista Meeting, publicada em 1953, uma defesa apaixonada do romance policial, feita por Rafael Negreiros. Observa muito bem Rafael que o atrativo de alguns grandes romances como Crime e Castigo, A Cartucha de Parma e outros, em parte se deve à feição detetivesca da obra. 

Será que o mau humor do mundo acadêmico, acerca das obras de Dan Brown, se deve a isso? Seus livros são chamados de guias turísticos, queijos suíços, pelos furos que conteriam, que são alavancados apenas pela força do marketing editorial, que tratam de temas polêmicos e outras coisas do mesmo jaez. Que bobagem, são apenas escritos de natureza detetivesca, feitos para divertir, apresentando um Sherlock diferente, especialista em simbologia. Mistérios, enigmas e suspense para aquele tipo de leitor criado por Edgar Allan Poe, caracterizado por Borges como alguém que lê com incredulidade, com desconfiança especial, louco por uma surpresa a cada página, direi eu.

Assim como li aquelas famosas obras de mistério, li também Anjos e Demônios, O Código da Vinci e O Símbolo Perdido e confesso que foram leituras quase ininterruptas. Portanto, livre do pudor de alguns homens de letras, incluo meu fictício colega, professor Robert Langdon, entre aqueles velhos detetives acima citados. Suas aventuras são de tirar o fôlego. Quando eu desejar erudição, volto a Borges, ou a Eco... e, em estado de plena liberdade, quando eu não quiser entender nada, leio Joyce.

domingo, 28 de agosto de 2011

A EDIÇÃO MOSSOROENSE DA NOBILIARQUIA PERNAMBUCANA

A história da publicação da obra de Borges da Fonseca, pela prestimosa Coleção Mossoroense, começa com a minha paixão por genealogia e se concretiza no amor de Vingt-un Rosado pelas coisas da cultura e também pelo mesmo assunto.
Dentre as grandes obras genealógicas publicadas no nosso país, três são clássicas: a Nobiliarquia Paulistana, História e Genealógica, escrita por Pedro Taques de Almeida Paes Leme; Catálogo Genealógico das Principais Famílias, da autoria de frei Antonio de Santa Maria Jaboatão e a notável Nobiliarquia Pernambucana, de Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca.

A obra de Pedro Taques teve reedição por iniciativa da Editora Itatiaia Ltda, em colaboração com a Editora da Universidade de São Paulo,em 1980, e o governo da Bahia, na gestão de João Durval Carneiro, republicou o trabalho de frei Jaboatão, com introdução e notas de Pedro Calmon, em 1985. Bem antes,em 1946, Afonso Costa já tratara da obra de Jaboatão, adaptando-a e desenvolvendo alguns tópicos. Faltava a Nobiliarquia Pernambucana, talvez a mais importante para os estudiosos da genealogia do Nordeste.

Na busca por minhas raízes genealógicas, primeiro pesquisei na literatura local e regional, principalmente na Coleção Mossoroense, na obra de Francisco Fausto, que depois foi desenvolvida por Lauro da Escossia no livro As Dez Gerações da Família Camboa, nas publicações de Olavo de Medeiros Filho, e por fim, na importante, porém confusa obra do tabelião paraibano Sebastião de Azevedo Bastos, intitulada No Roteiro dos Azevedos e Outras Famílias do Nordeste, publicação de 1954. 

Embora o prof. Vingt-un Rosado possuísse uma rica bibliografia genealógica, na qual se incluíam todos os exemplares do Anuário Genealógico Latino e do Anuário Genealógico Brasileiro, obras de Salvador de Moya, faltava a fonte principal para a minha pesquisa – a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca, a fim de tentar fazer a ligação dos meus ancestrais com os primeiros troncos baianos e pernambucanos.

Diante da minha insistente procura por essa obra grandiosa, Vingt-un sugeriu-me que consultasse, dentre os genealogistas meus conhecidos, se algum a possuía, para que, a partir desses exemplares fizéssemos uma nova edição facsimilar pela Coleção Mossoroense. Barros Leal, insigne médico e genealogista cearense possuía apenas um volume que disponibilizava, O Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico Pernambucano apenas facultava para consulta, e nada mais encontrei. Produzida em 1748 em quatro volumes manuscritos, a obra de Borges da Fonseca teve publicação parcial pela Revista deste citado Instituto Pernambucano, e integral, em 1935, pelos Anais da Biblioteca Nacional, em dois volumes, com prefácio de Rodolfo Garcia.

Estávamos nesse pé quando, ao retornar de uma de suas viagens, Vingt-un me fez a grande surpresa de me apresentar àquela tão sonhada publicação de 1935. Comprara por R$ 400,00, os dois volumes publicados por Garcia. Emprestou-me de imediato e logo em seguida deu início a sua reprodução facsimilar. Procurou-se, a partir dos dois volumes daquela edição, recuperar a divisão inicial dos manuscritos em quatro volumes. Sem dúvida, pelo valor e raridade da obra, ficou a Coleção Mossoroense mais enriquecida, ao contar com a Nobiliarquia Pernambucana entre seus títulos publicados, e os genealogistas e historiadores, agradecidos por essa iniciativa.

Por solicitação de Vingt-un, Affonso Romano de Sant’Anna, então presidente da Fundação Biblioteca Nacional, enviou uma relação de Bibliotecas e outras entidades que deveriam receber exemplares da nova edição. E assim, a história das publicações da Nobiliarquia Pernambucana passou a ter, também, um capítulo mossoroense, sob a chancela da Escola Superior de Agricultura de Mossoró. 

Atualmente, a publicação pode ser acessada em vários sites e a Fundação Vingt-un Rosado ultima também uma edição nesse formato, a ser disponibilizado para download gratuito, no Acervo Virtual Osvaldo Lamartine de Faria. É a democratização do conhecimento.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A FAMÍLIA ROCHA E A POSSE DA FAZENDA SANTA LUZIA


Os primeiros elementos da família Rocha, que documentalmente se relacionam com as terras de Santa Luzia, foram Jerônimo e Isabel da Rocha, que juntamente com mais seis suplicantes, solicitam sesmaria pedindo nada menos que cinco léguas de comprido por outras tantas de largo, para cada um deles, ao longo do rio Upanema, valendo dizer rio Mossoró. A petição foi deferida com a redução para três léguas por uma, para cada um, mas por desaproveitamento, caiu em comisso.

Luis da Câmara Cascudo estudou a seqüência das possessões registrando como mais antigo dono da Fazenda de Santa Luzia, o Capitão Baltazar da Rocha Bezerra, em 1728. Filho de outro de mesmo nome e de Maria Barbalho Bezerra, ambos paraibanos, descenderiam de outro Baltazar da Rocha Bezerra, que Borges da Fonseca diz que casou na Paraíba com gente da família dos Barbalhos, Morgados da Paraíba.

Decifrando, porém, velhos documentos referentes ao Terço dos Paulistas, que deram combates aos índios na chamada Guerra dos Bárbaros, o historiador Olavo de Medeiros Filho fez recuar a posse, ao sogro de Baltazar, o Capitão Teodósio da Rocha, que em 1712, recebia ordem do Sargento-Mor José de Morais Navarro, para que, juntamente com o soldado Bonifácio da Rocha, seu filho (conforme João Felipe Trindade)... marchem logo dentro de cinco dias, para sua fazenda do Monxoró...

O próximo a deter a posse da fazenda, ainda segundo Câmara Cascudo, foi Teodorico da Rocha Bezerra, antes de 1739. A posse teria vindo a este por compra ou seria sucessão? Sabe-se que este último foi pai de pelo menos dois filhos: Antonio Vaz Gondim e Damião da Rocha, que, segundo Francisco Fausto, teriam efetivamente habitado na região, ocupando terras ao norte da fazenda, indo até o Góis.
Mais informações se colhem sobre essas terras e personagens, na carta de sesmaria concedida a Baltazar Gonçalves dos Reis, em 1763. Dizia o suplicante:
que elle é senhor e possuidor de parte de um sítio de terra chamado a lagoa do Goes, na ribeira do Mossoró, distrito dessa Capitania, com três léguas de comprido e uma de largo, que ouve por herança de seu tio, Jeronimo da Silva e este o ouve por dote que lhe fez seu sogro Teodósio da Rocha ou seu tio Antonio Vaz Gondim, o qual havia tirado por sesmaria pelo governo desta Capitania.
A confirmar essa posse, temos o documento divulgado por Vingt-un Rosado, referente ao pedido de terras feito por José de Oliveira Leite, em 1754, na mesma quadra da Fazenda de Santa Luzia. Sobre essa solicitação, diz o Escrivão da Fazenda, que, revendo o Livro Sétimo de Registro de Sesmaria, encontrou o seguinte:
...consta haver dado de sesmaria a Antonio Vaz Gondim e seu irmão, Damião da Rocha, cinco léguas de comprido e uma de largo no rio Mossoró da parte do Norte, pegando das testadas da terra de seu pai, Capitão Teodorico da Rocha, para baixo que é o sitio chamado Santa Luzia...

Como José de Oliveira Leite não especificou o exato local da terra que solicitava, houve a preocupação por parte daquele Escrivão, de que essas viessem a coincidir com as posses já firmadas anteriormente.

Parece haver parentesco entre José de Oliveira Leite e Teodósio da Rocha, e talvez tenha sido essa a motivação para sua fixação em Mossoró, onde foi a primeira autoridade da Ribeira, por carta patente passada pelo Capitão-Mor da Capitania do Rio Grande do Norte, Pedro de Albuquerque, em 1755. Interessa, a respeito desse parentesco, o que se encontra na carta de sesmaria concedida a Antonio Pereira de Albuquerque, Teresa de Oliveira e Manuel Roriz, datada de 1709. As terras pretendidas eram as mesmas situadas... na ribeira do Mossoró, da parte do Norte do Rio dela... e foi preciso dar vistas aos autos da concessão anterior a Teodósio da Rocha:
...vistos os autos como por elles se mostra ser concedido Teodozio da Rocha e sua filha Teodosia e ao Capitão João Leite de Oliveira (...) toda a terra que se achar da Costa do mar pela Ribra. assima do Mossoro até donde o gentio chama de sete estrelo das partes do Norte e se mostrar que os justificantes Theodozio da Rocha e sua filha Teodosia de Oliveira Leite...   

Esclarece o referido documento, que a data e sesmaria lhes pertenciam por devolutas, e surge aí a figura de quem fora o anterior dono da terra, ou co-herdeiro dela:
...e como sendo outro citado Antonio da Rocha Pita para alegar e mostrar o dicto que tivesse contra esta data e sesmaria e não fizesse, o hei por excluso da terra...

Eis então Teodósio e João Leite de Oliveira com posse anterior a 1709. O prof. João Felipe da Trindade cita o Capitão João Leite de Oliveira, de idade de trinta e cinco anos em 1699, como filho do Capitão Mor Antonio Vaz Gondim. João, por sua vez, foi pai, dentre outros de Clara, batizada em 12 de Abril de 1710, tendo como padrinhos, José Ferreira e Felizarda Filgueira (essa filha de Teodósia da Rocha e neta de Teodósio da Rocha)

A partir de Damião e Antonio Vaz Gondim, teria havido solução de continuidade, com posse da terra, ao norte de Mossoró, por elementos de outras famílias? Acreditamos que não. Na primeira metade do Sec. XVIII coincidência ou não, ainda é um Rocha, Alexandre de Souza Rocha, que detém a posse da Ilha de Dentro e também de partes de terras no Góis. Ele e sua esposa, Leocádia Barbosa Vasconcelos, ambos naturais de Goiana, Pernambuco, estabeleceram-se por pouco tempo no Seridó, e definitivamente, nos citados lugares da Ribeira. Diz Francisco Fausto: Do Seridó mudou-se o casal para o sitio Ilha de Dentro na Ribeira do Mossoró onde fixou residência...

Supomos, não gratuitamente, que Alexandre pertença a essa mesma grei dos Rochas, que por todos esses séculos tem mantido a posse daquelas partes de terra. Igualmente da gens, seria Jerônimo da Rocha Tevez, natural da Ilha Terceira, que faleceu quando se dirigia, a cavalo, do Ceará para Mossoró, cuja filha, Quitéria Francisca de Oliveira, viria a se casar, em 1774, com José de Góis Nogueira, Comandante da Ribeira do Mossoró, filho de Manoel Nogueira de Lucena e de Firmiana Rosa dos Prazeres. Para Francisco Augusto, genealogista cearense, Jerônimo teria sido casado com Ana Maria de Albuquerque.

Por compra ou por herança, serão, na continuação, vários os possuidores de partes de terras nessa região, sendo digno de nota, a declaração que faz Manoel Francisco Rebouças, registrando, ainda em 1855, a presença de um Rocha Bezerra com posse na área.

Manoel Francisco Rebouças, natural e morador na freguesia de Nossa Senhora do Rosário da cidade do Aracaty,casado, declara que possui duas sortes de terras no sitio Tibau da freguesia da Senhora Santa Luzia, sendo oitenta e três braças e meia por compra a Bernardino da Rocha Bezerra e cento e oito e meia houve-as por legitima de minha falecida mãe, Tereza Rodrigues de Jesus tendo as mesmas terras uma légua de fundo – Mossoró,dezoito de dezembro de mil oitocentos e cinqüenta e cinco (1855)...

Alexandre e Leocádia deixaram filhos, dos quais, até agora, apenas três podemos perfilhar: Alexandre de Souza Rocha, natural do Seridó, casou em 1774 com Josefa Maria Calada, filha dos mesmos Manoel Nogueira de Lucena e Firmiana Rosa dos Prazeres; Matias Aires Delgado, natural de Russas/CE, casou com Francisca Inácia de Oliveira, filha de Francisco Falcão de Souza e de Helena Maria de Oliveira, e Eufrásio Alves de Oliveira, natural de Goiana, que Francisco Fausto assegura que morava no Upanema, na segunda metade do Sec. XVIII, casado com Quitéria de Oliveira e foram o tronco dos Alves de Oliveira e Alves de Souza, da cidade de Mossoró.

domingo, 14 de agosto de 2011

UMA VISITA À FEIRA DO LIVRO

Ontem fomos à nossa limitada Feira do Livro, que está ocorrendo na Estação das Artes Eliseu Ventania. Meu objetivo é claro e simples: comprar livros. Dispenso sempre a parte discursal, aquela coisa de ouvir escritores ou palestras sobre literatura. Pode ser importante ou interessante mais eu não gosto. E o digo agora com mais liberdade, depois do que falou João Ubaldo Ribeiro sobre o desprazer de conversar sobre literatura: Me entedia, só. Não tenho interesse. Acho chato. É como se você quisesse bater um papo sobre hóquei sobre patins. Eu digo: eu não quero. Mas ele, como grande escritor, nem sempre pode fugir, eu posso. Alem do mais, um desses palestrantes era o escritor Lobão, que desconheço como tal. Não sei se ele cantou alguns de seus sucessos no evento.

Visitei todos os estandes, e nesse vai e vem,folheando quase que cada livro, lembrei do que fazíamos quando crianças com os nossos gibis à porta do Cine Pax, e vi que, ao longo de 50 anos, nada mudei quanto a esse gosto pela leitura. Mudou o nível, mas o prazer pela página escrita é o mesmo.

Situado na Praça Rodolfo Fernandes, no centro de Mossoró, o Cine Pax, onde hoje funciona uma loja da Marisa, era o nosso ponto de encontro nos fins de semana pela manhã. Ficávamos no hall do cinema, com uma pilha de revistas trocando-as. Fantasma, Rock Lane, Superman, Batman, Tarzan, Mandrake, Tom Mix etc. Dávamos voltas e voltas (tal como fiz na Feira).Cada um com uma braçada de revistas, novas e usadas, examinando,comprando, vendendo, mas principalmente trocando.Década de 60 com certeza.

Em casa, após o almoço, o monte de revistas ao lado da rede e a leitura prazerosa de todas aquelas novas histórias.

A influência dos quadrinhos era tremenda. João Vitalino, antigo barbeiro que tinha seu salão à rua Venceslau Braz, chamava-me de Zorro, pois só andava “armado”, revólver de madeira na cartucheira amarrada na perna, pronto para o “duelo”. Certa vez, apareceu a moda do cabelo à escovinha, curto e que ficava em pé.Todos os meninos fizeram o seu corte. Seu João cortou o meu da maneira certa, mas sendo muito fino, deu a impressão de que havia cortado no zero, resultado: o Zorro só saiu de casa após o cabelo crescer. 

Hoje, o hábito continua, ao invés das revistas, aqui estou com um monte de livros, nos dois lados da rede. Da feira de ontem, as obras compradas denotam os interesses de adulto. Examino-as com prazer. Ao longo dos dias serão objeto de minha leitura cuidadosa, por enquanto uma análise superficial. Dentre eles uma dissertação de mestrado sobre Paulo Francis, que admiro, recuperado das esquerdas pela erudição; os conselhos de Sêneca, nos seus diálogos com Sereno, em busca da tranquilidade da alma; Belfagor, o Arquidiabo, de Maquiavel; Ciências da Mente e do Cérebro no Século XXI; um Dicionário Politicamente Incorreto. Interesses de adulto, sim, mas a criança que não morre em mim, ainda tem uma saudade danada de Rock Lane e de Durango Kid, e daquele antigo revolver de brinquedo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O ABUSO DO POLITICAMENTE CORRETO


Essa coisa do politicamente correto, tal como tem sido utilizada em todo o mundo, assemelha-se a uma doença. É a grande doença do século, diria William S. Lind, que pouco a pouco vai se alastrando, contagiando o nosso pensamento.

A idéia nasce na América do Norte com a finalidade meritória de defender os direitos das minorias oprimidas. Depois, porém, vem os excessos, e a coisa começa a virar patrulhamento. Ninguém menos que Umberto Eco, revoltou-se contra esse exagero. No seu livro La Bustina di Minerva, enfeixou o artigo Politicamente correti o intolleranti?, denunciando que o politicamente correto, está transformando-se em um novo fundamentalismo. 

A defesa das minorias com o politicamente correto é feita, no fundo, amedrontando a maioria, criando o medo do uso da palavra errada, da palavra tida como ofensiva, insensível, racista, machista ou homofóbica contra os inculpáveis, os abandonados, vítimas da história, e termina por implantar um clima inquisitorial.

Esse novo fundamentalismo não é obra do acaso. Segundo se percebe hoje, o marxismo apostou todas as suas fichas na transformação da sociedade via revolução econômica (aquela idéia da evolução da sociedade partindo do feudalismo até atingir o comunismo), mas foi fragorosamente derrotado. Agora tenta emplacar a revolução via cultura. Há assim a necessidade de que seja destruída a cultura ocidental judaica-cristã, para só depois processar-se a instalação do céu marxista. De imediato, na pauta esquerdista, está a necessidade de subverter alguns conceitos fundamentais ligados à família e à sexualidade, e, pela pressão do politicamente correto, colocar na defensiva qualquer que pense diferente. Aqui vão alguns exemplos: legalização do aborto voluntário, mudança no conceito de família, aceitação da homossexualidade como natural, feminismo, legalização do uso de drogas, dentre outros tão em discussão nos últimos anos.

A estratégia tem produzido algumas vitórias. Já ninguém pode ser contra a legalização do aborto sem ser taxado de retrógrado fundamentalista, contra a liberação da mulher (a mulher seria dona do seu corpo). O discurso correto seria o consentimento no assassinato. 

O que aconteceu no Supremo, com a equiparação da união homossexual à família, é um exemplo emblemático da utilização do politicamente correto em sua plenitude. Pouco interessa a opinião do povo brasileiro, agora exposta em pesquisa do Ibope (55 % contrários à aquela decisão), o importante naquele instante era render-se as barulhentas minorias organizadas de gays e lésbicas (não havia dúvidas quanto ao texto constitucional). 

Tivesse o Supremo um pouquinho mais de coragem e teria elastecido o conceito de família equiparando a união do homem com animais, também como uniões estáveis. Afinal essas situações existem, são minorias, nada produzem e são discriminadas, enquadrando-se perfeitamente no caso de minorias oprimidas – chama-se bestialidade ou zoofilia, permitida em alguns países. Nesses casos a adoção de filhos seria facilitada, pois já há exemplo prático: o casal francês Pierre e Elaine Thivillon, sem filhos, adotaram um gorila. O francês, administrador de um Zoológico, conta que ao longo de 13 anos de relacionamento, o casal criou um laço afetivo muito grande com o animal. 

Quem ouse hoje achar, mesmo teoricamente, que o homossexualismo não é natural será agressivamente acusado de homofobia. E aqui, a coisa beira o ridículo, basta ver a reação de algumas dessas associações processando Marcos Mion e a Record, pelo apresentador ter dito que a drag queen Nany People, tinha uma surpresinha. É a política de tolerância zero em relação aos que tem opinião diferente sobre o homossexualismo, dito agora homoafetividade. 

A tal ponto chegou a ação, o poder e o exagero desses grupos, que até Aguinaldo Silva, principal autor das novelas globais, homossexual assumido, questionado pela Revista Veja tachou de censura disfarçada a patrulha promovida por esses movimentos. Aliás, questionado sobre o que mais afasta o público das novelas ele respondeu: O povo não aguenta mais viado em novela. Chega! Tem muito. Tem novela que tem seis viados. As pessoas não aguentam mais isso. E geralmente os gays são todos iguais. São cópias dos héteros, querem casar, ter romance, engravidar e parir um filho nove meses depois. 

Os exageros do politicamente correto chegam também à Ecologia. A ânsia de por a culpa do aquecimento global nos países capitalistas é tanta que levou à fraude, gerando um verdadeiro escândalo sobre o rigor científico do relatório da ONU de 2007, sobre a situação climática do planeta. Enquanto isso, nas Universidades, quem tem coragem de se manifestar sobre o assunto sem ser desqualificado, sem ser tachado de politicamente incorreto? E olhe que essa é uma das fraudes científica mais maciças da história recente. 

Os casos são tantos que reunidos, formariam um novo FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assolam o País. Como a sugestão do feminismo radical para que se desconstruam os textos masculinizados como estão hoje. Por exemplo, a frase “o meu aniversário será no próximo mês” uma mulher deveria escrever “a minha aniversária será na próxima mês”.Por que não? Direitos iguais! 

Nessa tentativa de revolução cultural, de negação da tradição judaico-cristã, há, porém, uma pedra no caminho – a Bíblia, coluna até agora inexpugnável da cultura ocidental de onde emana toda a nossa moral. Acredito que os que vão tentar desconstruí-la, no final versejaram com Drummond: Nunca me esquecerei que no meio do caminho, tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra.

sábado, 16 de julho de 2011

MÁXIMA MARIA DA CONCEIÇÃO

Se perguntarem aos historiadores mossoroenses, quem foi essa senhora, talvez ninguém saiba. Lembrar-se-ão das matriarcas Firmiana Rosa dos Prazeres, da família Camboa, de Ana Maria, dos Guilherme de Melo, de Leocádia Barbosa Vasconcelos, dos Alves de Oliveira e Camboa, ou de Tereza Maria de Jesus, da família dos Ausentes, primeiras que por aqui se estabeleceram a partir de 1750. De origem jaguaribana, Máxima estabeleceu-se no Sitio Picada, nas várzeas do Apodi e seu nome aparece de passagem na história da cidade.  

O ancestral da primeira família mencionada acima foi Manoel Nogueira de Lucena, de origem pernambucana, sem dúvida descendente de Vasco Fernandes de Lucena por lá estabelecido no início da colonização. A tradição mossoroense registrou 12 filhos que teve com sua esposa Firmiana Maria dos Prazeres. Francisco Augusto, genealogista cearense, descobriu-lhe mais dois filhos de nome Joana Maria Calado e Francisco Ribeiro de Souza, que repete o nome de seu avô materno. 

Felix de Souza Nogueira, o quinto filho de Manoel Nogueira, andou lá pela Picada e conheceu Máxima Maria, que fazendo jus ao nome concebeu do filho do patriarca, gerando a Manuel Felix Calado. Não devia ser muito longe a morada dessa senhora, ou as paixões eram muito exaltadas, pois outro filho de Manoel, o sétimo, Antonio Nogueira de Lucena, descobrindo o caminho da Picada, emprenhou também Máxima, por ser ela o máximo ou quem sabe a única da região para esses serviços extras, pois Antonio era casado. O menino recebeu o mesmo nome do pai e casou depois com sua prima, Maria Soares de Lucena, primeira a ser batizada na nova capela de Santa Luzia, em 1773. Vai longe a descendência desses dois filhos de Manoel Nogueira com Máxima, em Mossoró e adjacências.

Picada: caminho aberto em mata fechada. Feitas a facão. Formavam as comunicações entre as localidades, entre os sítios. As picadas foram muitas naquela época: Boca da Picada, Picada do Livramento, Sitio Picada, dentre outras, mas os filhos do patriarca nunca erravam a picada, não se perdiam no caminho, achavam sempre a Máxima.

De Felix, Francisco Fausto diz apenas que existem descendentes seus em linhagens. De Antonio, a descendência está registrada. Gente ilustre como seu bisneto Capitão Targino Nogueira de Lucena, Vereador, Juiz de Paz, Delegado de Polícia, Administrador da Mesa de Rendas Estaduais, proprietário, negociante, criador, agricultor na cidade de Mossoró. E também os Nogueiras do Sítio Trapiá. 

Acredito que outros bons rapazes, da antiga Mossoró, também eram treinados na picada. Foi o caso do português José da Costa de Oliveira Barca, que por aqui vivia, vindo de Pernambuco. Também se divertia lá pelo Sitio, e dessas visitas a Máxima nasceu João Ferreira da Costa (ou Butrago). Este, de má índole, seria coadjuvante, juntamente com o seu inimigo figadal, padre Longino (dos Guilherme de Melo), das peripécias mais sangrentas da Ribeira do Mossoró. A descendência deste é grande, pelo seu casamento com Quiteria Rita, dos Alves de Oliveira. Foram seus filhos: João Ferreira da Costa Jr. Acursio Ferreira da Costa, Maximiano Ferreira da Costa e Antonio Ferreira da Costa.

E assim, com essa curta crônica genealógica, politicamente incorreta, resgato o nome dessa que pode ter sido a primeira prostituta de Mossoró, mas que pela força da biologia e da genética, é igualmente uma de nossas matriarcas. Intelectuais e políticos mossoroenses originaram-se do seu útero. O que aqui registro é apenas o pouco que ficou a descoberto na nossa genealogia. 

Mas que não haja constrangimento em descender de Máxima, afinal Jesus também descendia de uma prostituta – Raab, prostituta de Jericó, a segunda mulher mencionada na sua confusa genealogia, a primeira é Tamar, que usou de um estratagema para fornicar com Judá.

sábado, 2 de julho de 2011

UM RETRATO DE MEU PAI

Nestor Burlamaqui à direita.
Meu pai era um cara simples como a maioria dos pais. Não foi nome de rua nem de praça, embora por dever de ofício, como militar, tenha participado de fatos importantes, durante um tumultuado período da nossa história recente. Estimulado por algumas memórias familiares e à vista de velhos documentos, tracei a trajetória que aqui exponho nesta curta nota.


Nestor Filgueira Burlamaqui nasceu a 06 de setembro de 1909 em Areia Branca, mas bem que se poderia dizer mossoroense, pelo muito tempo que aqui viveu. Era filho do piauiense Tibério Cesar Conrado Burlamaqui, poeta que fora Presidente da Intendência de Areia Branca no período de 1899 a 1901 e de Luiza Filgueira, mossoroense.

Ainda jovem foi para o Sul do país. Questionado sobre isso contou-me que trabalhava em uma padaria de seu irmão Edgar, quando decidiu sair de Mossoró, viajando inicialmente para sua cidade natal e de lá embarcando para o Rio de Janeiro.

De fato, há o registro de sua matrícula na Marinha Mercante, feita na Agência de Areia Branca, em 18 de março de 1929, aos 19 anos. Um ano depois se alistou no Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro. Seu Certificado de Reservista de 1ª Categoria mostra que serviu no 2º Regimento de Infantaria, tendo sido incluído em 09.10.1930 e excluído por conclusão de tempo em 31.07.1937. Dizia que era Cabo telegrafista, o que é compatível com a informação oficial: era Segundo Cabo telefonista.

A reforma do Exército de 1908, reuniu quatro Companhias do 38º Batalhão de Infantaria, de Niterói e mais uma do 32º Batalhão, de Vitória, passando a constituir o 2º Regimento de Infantaria, com sede no Rio de Janeiro.

Durante o seu tempo de serviço participou de dois importantes eventos históricos: a Revolução Constitucionalista de 1932, e a Intentona Comunista de 1935. No primeiro caso, seu Regimento foi chamado a integrar as forças legais que se deslocaram para São Paulo. No segundo caso, foi mandado contra o quartel do 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, na cidade do Rio de Janeiro, foco da sublevação comunista na Vila Militar, que foi dominado em menos de 10 horas, com o sacrifício de 20 mortos entre os revoltosos. As atrocidades aí cometidas fizeram-no anticomunista. Como conseqüência, viu com bons olhos o advento da Revolução de 1964. 

Inúmeras vezes ouvi suas narrativas das ações de que participara, mas que agora não consigo identificar a qual evento se referia. Destacava principalmente o espírito de corpo do Regimento e a camaradagem que existia entre todos os soldados. Dessa época restaram algumas fotos sem data e identificação dos companheiros de farda. Uma delas em frente ao Monumento à Independência do Brasil, também chamado de Altar da Pátria, em São Paulo.

Imediatamente após seu desligamento do Exército, antes de retornar ao Rio Grande do Norte, trabalhou por curto período na Light. Sua Caderneta de Emprego (para a caixa de aposentadoria e pensões dos serviços de tração, força, luz e gás do Rio de Janeiro) data de 20.12.1937 e menciona que morava na Rua João Vicente, 111, Madureira. 

Informa ainda aquele Certificado de Reservista, que a partir da dispensa passaria a residir em Natal, à Rua Prudente de Morais, 786. Esse período em Natal, talvez corresponda ao de suas atividades na base aérea americana - Parnamirim Field - hoje Base Aérea de Natal – o famoso Trampolim da Vitória, onde dizia que teria trabalhado com americanos, vindo daí seu conhecimento de algumas palavras e frases em inglês, que vez por outra gostava de pronunciar. Houve época em que foi estimulado a buscar direitos, que supostamente teria por ter trabalhado em praça de guerra, durante a 2ª Grande Guerra.

Em 1940 procurou reativar seu vínculo com a Marinha Mercante, tendo solicitado uma segunda via de sua Caderneta de Matrícula para Tráfico, na Agência de Areia Branca, tendo que pagar os vistos atrasados correspondentes aos anos de 1931 a 1940. No carimbo do visto anual de 1943, menciona-se que morava em Natal. No visto de 1945, havia ascendido à categoria de Moço.

Em 01.08 de 1943, por influência do Desembargador Dionísio Filgueira, à época assumindo o Governo do Estado, foi admitido na função de Agente Fiscal da Prefeitura de Mossoró. Em 16.12.1952, foi exonerado desta função e nomeado Administrador do Cemitério Público e nesta função aposentou-se em 1969. 

A experiência na caserna tem influência duradoura. Minhas mais antigas lembranças de material impresso são de revistas com fotos de cunho militar. Em uma delas, uma foto de alguns japoneses rendendo-se aos americanos. Depois vieram os quadrinhos inesquecíveis. Homem que é homem não bebe água, bebe chumbo derretido, costumava brincar o meu pai. Afirmava que São Paulo queria se separar do Brasil e por isso houve a guerra de 32. Pelas virtudes militares votou no Marechal Teixeira Lott para Presidente da República, em 1960, contra Janio Quadros. Lembro de uma pequena espada, espécie de alfinete da campanha do militar. Jânio usava uma vassoura – o homem da vassoura vem aí, dizia o jingle janista. Janio ganhou a campanha e mergulhou o Brasil no abismo.

Quando voltei do mestrado ele me falou que estava adoentado.Pensou que era tuberculose, era câncer de pulmão. Operado em Fortaleza, faleceu logo após ser cirurgiado, no dia 23 de março de 1979, um pouco antes dos seus 70 anos. Um mês depois nasceu meu primeiro filho, seu primeiro neto que recebeu o nome de Nestor, em sua homenagem. 

A informação do Exército sobre sua conduta resume seu comportamento na vida: Penas disciplinares: Nenhuma; durante o tempo em que serviu neste regimento demonstrou optima conduta.