terça-feira, 27 de março de 2012

AMADORISMO NO ENSINO SUPERIOR


Considerando que as atividades universitárias são abrangidas pelo tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, os textos que se referem ao Ensino Superior são unânimes em afirmar que algumas competências são necessárias para a prática docente nesse nível educacional. O domínio em profundidade de uma determinada área do conhecimento evidencia-se em primeiro plano como essencial. Depois, é fora de dúvidas que o professor universitário deve possuir habilidades em pesquisa.

Não havendo curso de graduação para a formação desse profissional, a LDB indica legalmente os cursos de pós-graduação para a sua formação:

Art. 66. A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado.

Considera aquele documento que ao fazer mestrado ou doutorado, o futuro professor se habilita com profundidade em uma dada área do conhecimento (área de concentração) e realiza importante treinamento em pesquisa ao conduzir sua dissertação ou tese. Mas não fica descartado o especialista, desde que cumprida a Resolução nº 12/83 do antigo CFE que obriga, nos cursos de Especialização, o oferecimento de disciplinas de formação didático-pedagógica de pelo menos 60 h/aula.

A falha do Art. 66, esta no fato de que, exceto nas pós-graduações strictu sensu em áreas estritamente ligadas à educação, nesses cursos não se fala, no geral, em Didática ou Pedagogia, essenciais à atividade plena da docência, talvez pela noção errada de que esses são assuntos voltados apenas para os níveis médio e fundamental. Sobre isso dizem Selma Garrido Pimenta e Léa das Graças Anastasiou (2011):

Na maioria das instituições de ensino superior, incluindo as universidades, embora seus professores possuam experiência significativa e mesmo anos de estudos em suas áreas específicas, predomina o despreparo e até um desconhecimento científico do que seja o processo de ensino e de aprendizagem...

Dessa deficiência de conhecimento, vem o fato de que os professores desconhecem até fatos básicos como as diferenças na natureza das disciplinas e até mesmo entre assuntos numa mesma disciplina, que obrigaria a utilização de estratégias de ensino diferentes em cada caso. O predomínio de um único método de ensino – o discursivo, o mau uso das novas tecnologias, e o desrespeito às diferenças individuais dos alunos, são algumas outras provas do que dizemos. Disso resulta que embora concursados, nossos professores são, na verdade, amadores, como diz o professor Gilberto Teixeira no seu site Ser Professor Universitário, e sem a habilitação desejada para o ensino.  

O Ensino, primeiro item do tripé, a atividade mais característica e trabalhosa da academia, a atividade que recebe uma regulamentação mais estrita pelas instâncias universitárias, que determinam o que (conteúdo), quanto (carga horária) e quando  deve ser ensinado (horários), além de ser exercida por quem não está completamente habilitado, ainda recebe, por incrível que pareça, os efeitos negativos da pesquisa desenvolvida pelo docente. Esta, a pesquisa, segunda atividade do tripé, é sem dúvida a mais atraente e prazerosa, a que dá prestígio, mas que na prática, afasta bons professores da sala de aula, já que estes prezam mais serem tidos como pesquisadores, que qualquer outra coisa,deixando o ensino em segundo plano. Ousaria dizer, embora não generalizando, que o grande pesquisador é fraco professor, pela sua ausência, não refletindo no ensino, seu desempenho na pesquisa, como se poderia esperar. Nas Federais, confunde-se com servidor do CNPq, antes que do MEC.

Admito que o problema da formação desse profissional é complexo e segundo Cleoni Maria Barboza Fernandes pouco abordado em pesquisas e seminários e, ainda pouco discutido no interior das instituições universitárias.Não se resolve através de cursos de extensão de 30 ou 40 horas sobre Ensino e Aprendizagem. No início de minhas atividades procurei sanar essa deficiência através de textos e cursos variados sobre estratégias de ensino-aprendizagem, psicologia da aprendizagem e técnicas pedagógicas, com resultados razoáveis. Talvez a criação de disciplinas formativas, na pós-graduação, como já fazem algumas Universidades, ministradas por professores devidamente habilitados, seja a solução para o amadorismo no Ensino Superior.

quinta-feira, 8 de março de 2012

UVB-76, UVB-76 – 93 882 NAIMINA…



Quando chegamos do centro da cidade, verificamos que nossa casa havia sido arrombada, pois a janela lateral do meu quarto de dormir estava aberta. Dizem que de casa de pobre ladrão só leva susto, mas neste caso ele sabia o que viera buscar: meu B 481 da Philco, único item com algum valor de troca existente na casa. Custara-me uma bicicleta e mais alguns trocados. Era meu sonho de dexista, minha janela para o mundo. Esse modelo foi produzido entre os anos de 1970 e 80 e apresenta nove faixas de ondas curtas. Alem das faixas normais de AM, OC e FM, as faixas exclusivas para os 31, 25, 19, 16 e 13 metros, facilitam muito a sintonia.

      Eu praticava o dexismo sem saber que o fazia, apenas tinha muito prazer em captar, através das ondas curtas, as emissoras de rádio dos mais distantes países do mundo. Aperfeiçoava meu inglês acompanhando as transmissões de emissoras como VOA (Voice of America) ou da BBC de Londres (British Broadcasting Corporation), embora como quase todas as outras rádios internacionais, mantivessem seus departamentos de língua portuguesa, como ocorre até os dias de hoje. Na caça por novas emissoras, entrava pela madruga. Por mais fraco que estivesse o sinal, esperava pacientemente, ouvido colado, até que o locutor anunciasse o nome da emissora. Escrevia e recebia cartões (Cartão QSL), boletins, como London Calling e letras das músicas da época com suas traduções. Prazer inesquecível para o meu espírito universal, preso naquele esconso subúrbio.

     Em uma fita K7 cheguei a registrar dezenas dessas transmissões. Dentre elas a Rádio Transmundial, sinal fortíssimo, que transmitia de Bonaire, ilha holandesa no Caribe, a Radio Tirana, da Albânia, que só falava em Enver Hoxha e nas transformações sociais engendradas pelo socialismo, como também ocorria nas transmissões da Radio Moscou, Radio Havana e Rádio Pequim (tudo mentira, um dia o edifício ruiu por completo). Ouvia também a Deutsche Welle (A Voz da Alemanha), a simpática Rádio Nederland e seu delicioso programa poliglota Happy Station, Kol Israel, a RAI, italiana, a Rádio França, com seu inconfundível Ici Paris, e muitas e muitas outras. Dá pra imaginar a sensação de tristeza e vazio, quando vi aquela janela arrombada e a ausência do meu rádio Transglobe B 481.

      Havia uma guerra ideológica pelas ondas do rádio, pelo uso da ionosfera. Panfilov, em Los Piratas del Eter, denunciava o que chamava de radioguerra, praticada pelo mundo capitalista contra as forças socialistas, com a proliferação de sinais direcionados à cortina de ferro. Os comunistas, por sua vez, foram e são ainda os campeões na utilização do que se chama de Jamming, interferência eletrônica que invadia a freqüência de transmissão, principalmente da BBC, (China, Cuba e as Coréias até hoje utilizam esse processo). Claro que o chamado mundo livre também usou do mesmo expediente prejudicando a recepção da propaganda comunista ao redor do mundo.  

      Mas também havia mistério no correr do dial. Como certas emissoras que transmitiam uma sequência contínua de números, seguida de alguns outros sons. Nunca liguei muito pra elas, até que li a respeito. Ouvi-as muito em francês. Eram chamadas de Estações de Números, até hoje não inteiramente explicadas. Também estranhas são as ditas estações Pica-Pau, que pareciam maquinas trabalhando produzindo uma irritante sequência de tac, tac, tac. Há muita especulação ainda hoje sobre o assunto. Parece coisa de Arquivo X. Aliás, a série Fringe, apresentou um episódio baseado nessa estranheza.

      Fala-se que uma dessas emissoras, a estranhíssima UVB-76, depois de vinte anos transmitindo a mesma sequência de bips, produziu algo diferente. Uma voz interrompeu a transmissão e falou o seguinte:

UVB-76, UVB-76 – 93 882 naimina 74 14 35 74 – 9 3 8 8 2 nikolai, anna, ivan, michail, ivan, nikolai, anna, 7, 4, 1, 4, 3, 5, 7, 4.

      Os curiosos, que observam continuamente essas emissoras, relatam que freqüentemente, conversas distantes e outros ruídos de fundo podem ser ouvidos pela estação sugerindo a utilização de um microfone ao vivo e constantemente aberto. Em 3 de novembro de 2001, uma conversa em russo foi ouvida: "Я - 143. Не получаю генератор. Идёт такая работа от аппаратной. ("Eu sou o 143. Eu não recebo o oscilador (gerador). " "Isso é o que a sala de operações está emitindo." ou "Essas são as ordens de operações."). Não é espantoso?

      Nunca desliguei completamente das ondas do radio, embora atualmente os muitos ruídos (todo mundo tem cerca elétrica) impeçam uma recepção adequada. Por onde andei, estudando, morando, ou trabalhando sempre fiz questão de ter próximo a mim, um radio receptor e logo que recebi meus primeiros trocados como professor da ESAM comprei outro Transglobe B 481. Também uso, com certa freqüência o computador na sintonia das emissoras distantes. O sinal é mais nítido, mas nada substitui a caça das estações estrangeiras, uma a uma, mesmo que se corra o risco de encontrar, ali pela esquina da faixa de 25 metros, alguma mensagem estranha e assustadora.

quinta-feira, 1 de março de 2012

DOS NOMES FEIOS


Com o título acima, Luis da Camara Cascudo publicou delicioso estudo na Revista do Livro, em 1956, embora não tenha ousado ir além do palavrão Merda, ao citar a reação de sua tia-avó, sempre que era surpreendida pelos sobrinhos. Dizia Cascudo que o vocábulo mais reprimido pela educação é justamente o que nos escapa de inopino como reação a uma determinada situação irritante.

Há um único dicionário do palavrão - os nomes feios - em língua portuguesa. Foi escrito por Mario Souto Maior e contém cerca de 3.000 termos. Depois de se debruçar sobre o carnaval, o folclore da cachaça, a medicina popular e outros aspectos da cultura popular nordestina, resolveu estudar esse interessantíssimo assunto. Foi sugestão de Gilberto Freyre, que fez também o prefácio da edição de 1979 e que dizia que no momento exato,sim, o palavrão é necessário. É insubstituível.

A explosão oratória através do palavrão se dá transgredindo os limites, mais como autodefesa que agressão. Limites postos pela conveniência social. Gustavo Barbosa, em sua dissertação de mestrado intitulada Grafitos de Banheiro – A literatura proibida, diz:

...se alguns assuntos ou práticas desordenam, incomodam e precisam ser excluídos do repertório socialmente desejável, é porque ameaçam a gramática estabelecida pela ordem cultural.

É fácil constatar o que se excluí preferencialmente: o obsceno, o imoral, o que se refere à sexualidade ou à excreção, que será também o que vai sair com mais veemência nos momentos de tensão.

Gustavo estudou essas expressões despudoradas, produzidas na solidão do banheiro, no anonimato, mas essa quebra dos limites pode ser constatada todos os dias em um verdadeiro filão público desse comportamento, nas reações às famosas Pegadinhas do Mução.

Embora considerado politicamente incorreto (essa praga se espalhou demais), Mução é um dos maiores humoristas do país e as criticas que recebe se devem, sem dúvidas por trabalhar as pegadinhas tendo como ponto forte a dolorosa reação aos apelidos e situações, sugeridas por amigos e parentes das “vítimas”. Alias, por si só os apelidos que aparecem no programa poderiam ser objeto de estudo antropológico e folclórico. Referem-se a todas as partes do corpo: pé de calango, perna de sabia, pitoquinha de arroz, barriguinha de polenta, peito de macaco, pescoço de mola, papada de porco, boca de cavalo, venta de suvela, orelha seca e por aí vai.

Durante os telefonemas, a menção do apelido de forma inesperada faz a “vítima” agir como descrito acima, com palavrões, com palavras feias. Como esperado, as reações agressivas se referem quase na sua totalidade a questões sexuais. Fela da puta é o que vem primeiro, competindo com a acusação de pratica homossexual: viado, fresco, baitola, travesti, bundeiro, demonstrando a idéia que o povo tem da inferioridade moral e do rebaixamento desse tipo de atividade sexual, como valor negativo em si mesmo. O apresentador também é mimoseado vez por outra de corno ou filho de corno.

Essa fixação na ofensa sexual tem como fundamento a percepção intuitiva da importância do ato reprodutor. Não por acaso John Alcock em seu livro Animal Behavior: an evolutionary approach, diz que o comportamento reprodutivo é o ato biológico mais importante do ser vivo e o objeto central da seleção natural. Rollo May, em Eros e Repressão, não diz diferente quando afirma que ...o sexo permanece a força procriadora, o impulso que perpetua a raça, a fonte do mais intenso prazer humano... o mysterium tremendum. Portanto, dizer que você ou seus parentes não o pratica da forma esperada, é a ofensa máxima.

O repertório de impropérios do programa é riquíssimo merecendo a atenção sugerida por Camara Cascudo, no artigo citado, para que etnólogos realizassem uma análise mais atenciosa e uma exposição mais lógica de sua persistência e vitalidade ao longo dos milênios, resistindo a todas as religiões, estatutos sociais e manuais de boas maneiras.

O sucesso das pegadinhas do Mução vem daí, dessa vontade de transgressão existente em cada um de nós, homens do povo ou doutores, e que nos diverte ao aflorar durante a humilhação alheia, afinal, pimenta no cú dos outros é refresco.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

TOMARA QUE CHOVA TRÊS DIAS SEM PARAR

Nunca gostei de carnaval. Tá certo que vem de longe, que serve de extravasamento e de válvula de escape das pressões do ano inteiro, mas não vai com o meu temperamento. Passa-me a sensação de alegria encomendada com dia para começar e terminar.

Minha lembrança mais antiga sobre a festa, me pega maldizendo o período que estava para iniciar. Eu era muito novo para racionalizações religiosas ou morais a respeito. Acredito que meu afastamento se dava e se dá pela sensação de desorganização, desregramento e mau gosto. Exemplos disso eram antigamente os chamados assaltos carnavalescos, verdadeira invasão de privacidade, ou os conhecidos Ursos que perambulavam pelas ruas, acompanhados de crianças, pedindo dinheiro, e ainda alguns foliões isolados vestidos de mulher, outros de penico na mão, com cerveja e algumas lingüiças dentro, à guisa de cocô e urina.  

Em um clube que ficava próximo ao hoje Mercado da Cobal, em Mossoró tive minha primeira experiência de baile carnavalesco. Minha mãe consentia que nossa vizinha, Fransquinha me levasse para as festas que lá ocorriam. Talvez tivesse uns dez anos de idade, e Fransquinha, já moça feita, dizia que era minha namorada. Iniciada a festa com o tradicional toque de Zé Pereira, a única coisa que fazíamos era pular e rodar em torno do centro do salão a cada música que era tocada pelo pequeno conjunto musical. Pulávamos o carnaval, como se dizia. Em um daqueles carnavais, as conversas sobre uma moça (o nome já se foi), que sob os efeitos do lança-perfume, teria perdido o que não era para perder, pelo menos naquelas circunstâncias. Tenho a impressão que, nas fofocas sobre o fato, as outras moças deixavam escapar, por trás dos comentários maldosos e misteriosos, um pouco de inveja do ocorrido. O tal do lança-perfume (chamávamos cloretil),tinha a marca Rodouro e foi muito utilizada nos carnavais brasileiros nas chamadas batalhas de confetes, até que os foliões descobriram que inalado dava barato. A partir de então, o desodorizador em forma de spray foi proibido nos salões.

Durante longos anos, nosso carnaval de meninos pobres dos paredões, consistia em ir até o centro da cidade para ver o corso automobilístico. Permanecíamos em frente ao Cine Pax, feito bobos, observando os carros que percorriam no seu trajeto, as principais ruas do centro comercial de Mossoró. Os carros, na sua maioria descobertos e enfeitados, passavam e passavam, e os foliões sempre cantando e dançando sobre eles. Na volta para casa tentávamos, e na maioria das vezes conseguíamos, penetrar nos bailes que aconteciam no Clube Ypiranga. Lembro dos planos para desviar a atenção dos leões de chácara que ficavam, às vezes na porta, às vezes ao pé da escada que dava acesso ao salão onde se desenrolava o baile, impedindo a nossa entrada, por menores e por pobres que éramos. Lá dentro, estranhos no ninho, pulávamos o carnaval dos ricos, esperando a qualquer momento o convite para cair fora. Coisa de crianças.

O tempo passou e aí pelos quarenta e tantos anos, fugi com a família, do burburinho sem graça do carnaval, para as saudáveis águas do Hotel Termas. Mas entre uma cerveja e outra, por iniciativa de um grupo de baianos presentes, tive minha última experiência carnavalesca. Começamos a dançar e, como se dizia antigamente, a pular o carnaval. Outros grupos se formaram e de repente estávamos, como sempre, pulando e rodando, dessa vez em torno das piscinas do resort.

Com o passar dos anos e com a descaracterização de tudo, o carnaval perdeu a sua periodicidade e passou a ser promovido também fora da época certa (hoje, até aniversário se faz fora de época). Já sem cunho cultural, transformou-se de vez em atividade meramente comercial, paraíso das drogas e da falta de pudor.

Quando vejo as notícias de que os bancos de sangue, estão sendo abastecidos, os hospitais preparados, a distribuição de camisinhas programada e as polícias engajadas numa verdadeira operação de guerra para enfrentar o carnaval que se aproxima, só me resta torcer pela população e rezar para que durante a festa, chova três dias sem parar.

sábado, 21 de janeiro de 2012

LEMBRANÇAS DE MINHA MÃE



Minha mãe - Iris Ferreira da Silva - foi minha primeira professora. Normal, afinal são as mães que permanecendo mais tempo junto aos filhos acabam por transmitir muito de seus hábitos, costumes e sabedoria. As primeiras tentativas de me desasnar vieram dela. Disseram para ela que o aprendizado seria facilitado se ministrado ali pelas primeiras horas da manhã. Era o ABC. Daquela época, dentre outras coisas, lembro que detestava comer galinha, que um dia me deram umas colheradas de óleo de rícino e que a água do pote era esterilizada com uma pedra aquecida jogada no seu interior. Talvez o método de minha mãe tenha apressado o aprendizado: um dia, sozinho, tive a suprema alegria de notar que conseguira ler. Desde então, apesar de ter recebido educação formal até o doutorado, a sensação de autodidatismo não mais me abandonou.

Gente muito boa, minha mãe. Guardo dela a lembrança de pessoa inteligente e sábia, embora sem educação formal. Dava-me conselhos e eu a consultava. Surpreendeu-me, certa vez (essas lembranças nunca morrem), na mais tenra infância, de brincadeirinhas com uma menina, e na repreensão gestual e sonora, deixou-nos apenas antever, sem repressão nem sustos, que aquilo era assunto de importância, como arquetipicamente já sabíamos.

Minha mãe era negra e a maior parte de minha infância passei entre tias e primos negros. Todos muito pobres. Brancos, só meu pai (que era dos Filgueira Burlamaqui), e a minha avó, mãe dela, Maria Pedro, descendentes dos Ferreira da Costa, de Jaguaruana-CE. Há aqui uma seqüência de casamentos mistos: meu avô negro com minha avó branca, meu pai branco com minha mãe negra, meu casamento com minha esposa parda, com filhos brancos e morenos. Darcy Ribeiro teria abençoado: mestiço é que é bom.

Uma lembrança dolorosa. Certa vez, em casa da minha tia Alcinda, ao anoitecer, ela achou que era hora de retornar, o que significava fim das brincadeiras. Como toda criança estrebuchei, chorei, mas fui levado de volta. No caminho, ao passar por um grupo de amigos um deles perguntou – Ói Marcos, essa é sua mãe? Com raiva como estava e ainda choramingando respondi que não. Recebi de minha mãe o cocorote mais doloroso do mundo. Pela primeira e única vez, recebi dela um castigo físico. Estranhei a violência e também porque ela chorou junto. Só muito depois entendi que a negativa tocara-lhe a alma de negra que tivera um filho branco. Antes tivera outro filho - José Maria - meu irmão negro, que morreu aos primeiros vagidos. O sobrevivente, alourado e de olhos claros, que ela parira, em casa, na Rua Alexandre Baraúnas, como era costume, negara-lhe a maternidade.

Tinha lá suas estranhezas, a minha mãe. Um dia meu pai me pediu para ter cuidado, por aqueles dias, por que a velha Iris havia sonhado com casamento e isso geralmente significava morte na redondeza. Não lembro se dessa vez a premonição foi verdadeira.   

Ela era protestante, embora desrespeitasse algumas das recomendações do cristianismo. Não ligava, por exemplo, para a afirmativa de Jesus de que o que torna impuro é o que sai, e não o que entra pela boca, pois me fez recomendação estrita para nunca comer sangue, em respeito à recomendação veterotestamentária. Daí, sempre sentir-me culpado, mesmo já adulto, ao comer a deliciosa galinha à cabidela feita por dona Maria, lá no Bar do Chico. Evitava quase todo o sangue, mas temia o castigo de engasgar-me com algum pedacinho de osso da galinha.

Pouco ortodoxa também era sua atitude de levar-me, às ocultas, ao fundo do quintal, para fazer orações à lua nova. Não lembro que palavras dizia, mas sei que fazia pedidos, mostrava objetos, minha camisa, a carteira de cédulas do meu pai, etc. Depois pedia segredo sobre o ato, em uma atitude muito parecida a dos marranos de Belmont em Portugal.

Minha prima Carmelita, em resposta a freqüentes solicitações sobre qualquer documento que esclarecesse os seus ancestrais, certa vez mostrou-me uma velha carteirinha da Assembléia de Deus, onde constava que o nome do seu pai era Manuel Pedro Varela, e de seus avós maternos, Antonio Ferreira da Costa e Francisca Raimunda de Jesus. Nos registros paroquiais de Areia Branca encontrei o seu batismo feito no dia 21/01/1921, filha legítima de Manuel Pedro Varella e de Maria Ferreira da Costa. Padrinhos: Manuel Leandro e Mariana Vasconcelos.
Uma única foto dela me restou. A foto do seu título de eleitora, já agora desfigurada, descaracterizada. Gente pobre era assim: foto só para documentos. Ficou a do coração, bem clara e para sempre.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ANIVERSÁRIO DE KAIRÓS




No mês passado, este blog completou um ano em atividade. Foram 55 postagens que receberam mais de 5000 visitas, numa média de 416 por mês, embora só constem 14 seguidores. Não sei se foi muito ou pouco, mas a natureza dos assuntos, aponta para visitas ou pesquisas qualificadas, já que do blog estão excluídos assuntos especializados em áreas chamativas e polêmicas expressando apenas minha visão pessoal, original.

Tal como o deus grego Kairos, que se refere à qualidade e não à quantidade dos momentos vividos, acredito que os buscadores desejavam algo assim, quando iniciaram suas buscas. Aqui chegaram utilizando palavras chaves como Kairos,charadas difíceis, manias de escritores, curso de matemática, genealogia, banqueiro século XIX, Gigliola Cinquetti, traição de Francesco Burlamacchi,  e a própria denominação do blog, dentre outras.

As visitações foram encaminhadas predominantemente a partir do www.google.com.br (1.794), seguido de www.facebook.com (157), sitio onde compartilho cada nova postagem. Outras vieram de outros sites de busca, do Orkut e de blogs pessoais. Originaram-se principalmente do Brasil (4.397), seguido pelos Estados Unidos (214) e Portugal com 153 visitações. 

O maior número de visitações ocorreu no mês de agosto (638), seguido pelo mês de outubro (629) de 2011. O mês de menor número de acessos foi novembro de 2010, quando o blog iniciava (99).

Cinco postagens foram mais populares: VECCHIA AMERICA (588 visualizações), O TIJOLÃO DO PROF. MANUEL JAIRO BEZERRA (340 visualizações), A CHARADA É UM POUCO DIFÍCIL, (3,2) (199 visualizações), OS LIVROS DA EDITORA MIR (163 visualizações) e 2011 - ANO DA ITÁLIA NO BRASIL com 95 visualizações. 

Foram feitos 45 comentários. Os posts mais comentados foram INESPERADO REENCONTRO COM O XADREZ, e O ABUSO DO POLITICAMENTE CORRETO, ambos com oito comentários.

No fundo, cada postagem teve a intenção de servir culturalmente. Muito obrigado.







terça-feira, 6 de dezembro de 2011

SOBRE O PECADO


Por mais afastados que estejamos dos assuntos religiosos, não nos podemos furtar da reflexão sobre esse tema, e quer nos orientemos ou não, nos variados atos do drama humano, pela vertente religiosa, no fundo, será sempre pelo norte ético que nos guiaremos. Se assim não procedermos, se ferirmos mores e costumes, pagaremos com o julgamento da consciência, porque dentro de cada um de nós existe o conhecimento do bem e do mal. A sanção, o castigo, vem, pois, primeiramente de nós mesmos.
 
Na minha teoria pessoal do pecado, vejo-o caracterizado de duas maneiras: primeiro como algo que direta ou indiretamente prejudica alguém; e em segundo lugar, ligado ao velho conceito hebreu de idolatria, no sentido de escravidão a algo que nos afasta da nossa missão mais essencial, nos prejudicando. Aliás, não é outra coisa que se acha expressa nos ensinamentos religiosos.

Expliquemos nosso raciocínio com a importantíssima questão do sexo. De duas formas será pecaminoso: se praticado sem o desejo e o consentimento dos envolvidos na relação, ou quando se transforma em atividade reificada, principal dos indivíduos. Fora disso não há pecado.

No primeiro caso, faltando o desejo e o consentimento, estará caracterizado o estupro, a prostituição ou a traição. Na segunda forma é caso típico de idolatria, como também o é o exagerado apego ao dinheiro, ao poder, à alimentação e a tudo que impeça ou perturbe a realização da nossa essência, que para o religioso significaria amar a Deus sobre todas as coisas. Em ambos os casos fere-se alguém.

A literatura bíblica afirma que todos os pecados serão perdoados, menos aqueles cometidos contra o espírito. E também que somos templos desse espírito, que entendo como dignidade humana, o que há de mais profundo e significativo dentro de cada um de nós.

O castigo da idolatria não será a descida de fogo do céu para matar o pecador, mas a sensação de enfraquecimento espiritual, o sentimento de que nos afastamento do nosso centro, de que desperdiçamos a existência em desvios malsãos. O castigo por ferir o semelhante deverá ser de âmbito da moral, do sentimento de culpa e da justiça, e que no final também ocasionará prejuízos ao espírito. Assim, acredito que o pecado seja de natureza relacional (eu, comigo mesmo, ou com você). 

Embora não seja necessária a admoestação religiosa para evitá-lo, ouçamos as lições dos sábios sobre isso. Conta-se que alguém que desejava converter-se ao judaísmo pediu que o muito célebre Rabi Akiva recitasse toda a Lei, enquanto permanecesse sobre um dos pés. Não faças aos outros o que não queres que te façam, essa é a Lei, e tudo mais é comentário, teria sido a resposta do sábio.

Na mesma linha de pensamento, da qual, aliás, não poderia fugir, pois também era judeu, o Rabi Jesus recomendou que amássemos o próximo como a nós mesmos e a Deus acima de tudo. Em ambos os casos o que se pede é em primeiro lugar o respeito à própria dignidade pessoal, e em segundo, que se respeite a alheia: ame-se para amar o próximo. Observando ambas as recomendações estaremos, sobretudo respeitando o divino que há em nós e que no pecado é maculado. Nada mais se pode acrescentar sobre o assunto.