quinta-feira, 1 de março de 2012

DOS NOMES FEIOS


Com o título acima, Luis da Camara Cascudo publicou delicioso estudo na Revista do Livro, em 1956, embora não tenha ousado ir além do palavrão Merda, ao citar a reação de sua tia-avó, sempre que era surpreendida pelos sobrinhos. Dizia Cascudo que o vocábulo mais reprimido pela educação é justamente o que nos escapa de inopino como reação a uma determinada situação irritante.

Há um único dicionário do palavrão - os nomes feios - em língua portuguesa. Foi escrito por Mario Souto Maior e contém cerca de 3.000 termos. Depois de se debruçar sobre o carnaval, o folclore da cachaça, a medicina popular e outros aspectos da cultura popular nordestina, resolveu estudar esse interessantíssimo assunto. Foi sugestão de Gilberto Freyre, que fez também o prefácio da edição de 1979 e que dizia que no momento exato,sim, o palavrão é necessário. É insubstituível.

A explosão oratória através do palavrão se dá transgredindo os limites, mais como autodefesa que agressão. Limites postos pela conveniência social. Gustavo Barbosa, em sua dissertação de mestrado intitulada Grafitos de Banheiro – A literatura proibida, diz:

...se alguns assuntos ou práticas desordenam, incomodam e precisam ser excluídos do repertório socialmente desejável, é porque ameaçam a gramática estabelecida pela ordem cultural.

É fácil constatar o que se excluí preferencialmente: o obsceno, o imoral, o que se refere à sexualidade ou à excreção, que será também o que vai sair com mais veemência nos momentos de tensão.

Gustavo estudou essas expressões despudoradas, produzidas na solidão do banheiro, no anonimato, mas essa quebra dos limites pode ser constatada todos os dias em um verdadeiro filão público desse comportamento, nas reações às famosas Pegadinhas do Mução.

Embora considerado politicamente incorreto (essa praga se espalhou demais), Mução é um dos maiores humoristas do país e as criticas que recebe se devem, sem dúvidas por trabalhar as pegadinhas tendo como ponto forte a dolorosa reação aos apelidos e situações, sugeridas por amigos e parentes das “vítimas”. Alias, por si só os apelidos que aparecem no programa poderiam ser objeto de estudo antropológico e folclórico. Referem-se a todas as partes do corpo: pé de calango, perna de sabia, pitoquinha de arroz, barriguinha de polenta, peito de macaco, pescoço de mola, papada de porco, boca de cavalo, venta de suvela, orelha seca e por aí vai.

Durante os telefonemas, a menção do apelido de forma inesperada faz a “vítima” agir como descrito acima, com palavrões, com palavras feias. Como esperado, as reações agressivas se referem quase na sua totalidade a questões sexuais. Fela da puta é o que vem primeiro, competindo com a acusação de pratica homossexual: viado, fresco, baitola, travesti, bundeiro, demonstrando a idéia que o povo tem da inferioridade moral e do rebaixamento desse tipo de atividade sexual, como valor negativo em si mesmo. O apresentador também é mimoseado vez por outra de corno ou filho de corno.

Essa fixação na ofensa sexual tem como fundamento a percepção intuitiva da importância do ato reprodutor. Não por acaso John Alcock em seu livro Animal Behavior: an evolutionary approach, diz que o comportamento reprodutivo é o ato biológico mais importante do ser vivo e o objeto central da seleção natural. Rollo May, em Eros e Repressão, não diz diferente quando afirma que ...o sexo permanece a força procriadora, o impulso que perpetua a raça, a fonte do mais intenso prazer humano... o mysterium tremendum. Portanto, dizer que você ou seus parentes não o pratica da forma esperada, é a ofensa máxima.

O repertório de impropérios do programa é riquíssimo merecendo a atenção sugerida por Camara Cascudo, no artigo citado, para que etnólogos realizassem uma análise mais atenciosa e uma exposição mais lógica de sua persistência e vitalidade ao longo dos milênios, resistindo a todas as religiões, estatutos sociais e manuais de boas maneiras.

O sucesso das pegadinhas do Mução vem daí, dessa vontade de transgressão existente em cada um de nós, homens do povo ou doutores, e que nos diverte ao aflorar durante a humilhação alheia, afinal, pimenta no cú dos outros é refresco.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

TOMARA QUE CHOVA TRÊS DIAS SEM PARAR

Nunca gostei de carnaval. Tá certo que vem de longe, que serve de extravasamento e de válvula de escape das pressões do ano inteiro, mas não vai com o meu temperamento. Passa-me a sensação de alegria encomendada com dia para começar e terminar.

Minha lembrança mais antiga sobre a festa, me pega maldizendo o período que estava para iniciar. Eu era muito novo para racionalizações religiosas ou morais a respeito. Acredito que meu afastamento se dava e se dá pela sensação de desorganização, desregramento e mau gosto. Exemplos disso eram antigamente os chamados assaltos carnavalescos, verdadeira invasão de privacidade, ou os conhecidos Ursos que perambulavam pelas ruas, acompanhados de crianças, pedindo dinheiro, e ainda alguns foliões isolados vestidos de mulher, outros de penico na mão, com cerveja e algumas lingüiças dentro, à guisa de cocô e urina.  

Em um clube que ficava próximo ao hoje Mercado da Cobal, em Mossoró tive minha primeira experiência de baile carnavalesco. Minha mãe consentia que nossa vizinha, Fransquinha me levasse para as festas que lá ocorriam. Talvez tivesse uns dez anos de idade, e Fransquinha, já moça feita, dizia que era minha namorada. Iniciada a festa com o tradicional toque de Zé Pereira, a única coisa que fazíamos era pular e rodar em torno do centro do salão a cada música que era tocada pelo pequeno conjunto musical. Pulávamos o carnaval, como se dizia. Em um daqueles carnavais, as conversas sobre uma moça (o nome já se foi), que sob os efeitos do lança-perfume, teria perdido o que não era para perder, pelo menos naquelas circunstâncias. Tenho a impressão que, nas fofocas sobre o fato, as outras moças deixavam escapar, por trás dos comentários maldosos e misteriosos, um pouco de inveja do ocorrido. O tal do lança-perfume (chamávamos cloretil),tinha a marca Rodouro e foi muito utilizada nos carnavais brasileiros nas chamadas batalhas de confetes, até que os foliões descobriram que inalado dava barato. A partir de então, o desodorizador em forma de spray foi proibido nos salões.

Durante longos anos, nosso carnaval de meninos pobres dos paredões, consistia em ir até o centro da cidade para ver o corso automobilístico. Permanecíamos em frente ao Cine Pax, feito bobos, observando os carros que percorriam no seu trajeto, as principais ruas do centro comercial de Mossoró. Os carros, na sua maioria descobertos e enfeitados, passavam e passavam, e os foliões sempre cantando e dançando sobre eles. Na volta para casa tentávamos, e na maioria das vezes conseguíamos, penetrar nos bailes que aconteciam no Clube Ypiranga. Lembro dos planos para desviar a atenção dos leões de chácara que ficavam, às vezes na porta, às vezes ao pé da escada que dava acesso ao salão onde se desenrolava o baile, impedindo a nossa entrada, por menores e por pobres que éramos. Lá dentro, estranhos no ninho, pulávamos o carnaval dos ricos, esperando a qualquer momento o convite para cair fora. Coisa de crianças.

O tempo passou e aí pelos quarenta e tantos anos, fugi com a família, do burburinho sem graça do carnaval, para as saudáveis águas do Hotel Termas. Mas entre uma cerveja e outra, por iniciativa de um grupo de baianos presentes, tive minha última experiência carnavalesca. Começamos a dançar e, como se dizia antigamente, a pular o carnaval. Outros grupos se formaram e de repente estávamos, como sempre, pulando e rodando, dessa vez em torno das piscinas do resort.

Com o passar dos anos e com a descaracterização de tudo, o carnaval perdeu a sua periodicidade e passou a ser promovido também fora da época certa (hoje, até aniversário se faz fora de época). Já sem cunho cultural, transformou-se de vez em atividade meramente comercial, paraíso das drogas e da falta de pudor.

Quando vejo as notícias de que os bancos de sangue, estão sendo abastecidos, os hospitais preparados, a distribuição de camisinhas programada e as polícias engajadas numa verdadeira operação de guerra para enfrentar o carnaval que se aproxima, só me resta torcer pela população e rezar para que durante a festa, chova três dias sem parar.

sábado, 21 de janeiro de 2012

LEMBRANÇAS DE MINHA MÃE



Minha mãe - Iris Ferreira da Silva - foi minha primeira professora. Normal, afinal são as mães que permanecendo mais tempo junto aos filhos acabam por transmitir muito de seus hábitos, costumes e sabedoria. As primeiras tentativas de me desasnar vieram dela. Disseram para ela que o aprendizado seria facilitado se ministrado ali pelas primeiras horas da manhã. Era o ABC. Daquela época, dentre outras coisas, lembro que detestava comer galinha, que um dia me deram umas colheradas de óleo de rícino e que a água do pote era esterilizada com uma pedra aquecida jogada no seu interior. Talvez o método de minha mãe tenha apressado o aprendizado: um dia, sozinho, tive a suprema alegria de notar que conseguira ler. Desde então, apesar de ter recebido educação formal até o doutorado, a sensação de autodidatismo não mais me abandonou.

Gente muito boa, minha mãe. Guardo dela a lembrança de pessoa inteligente e sábia, embora sem educação formal. Dava-me conselhos e eu a consultava. Surpreendeu-me, certa vez (essas lembranças nunca morrem), na mais tenra infância, de brincadeirinhas com uma menina, e na repreensão gestual e sonora, deixou-nos apenas antever, sem repressão nem sustos, que aquilo era assunto de importância, como arquetipicamente já sabíamos.

Minha mãe era negra e a maior parte de minha infância passei entre tias e primos negros. Todos muito pobres. Brancos, só meu pai (que era dos Filgueira Burlamaqui), e a minha avó, mãe dela, Maria Pedro, descendentes dos Ferreira da Costa, de Jaguaruana-CE. Há aqui uma seqüência de casamentos mistos: meu avô negro com minha avó branca, meu pai branco com minha mãe negra, meu casamento com minha esposa parda, com filhos brancos e morenos. Darcy Ribeiro teria abençoado: mestiço é que é bom.

Uma lembrança dolorosa. Certa vez, em casa da minha tia Alcinda, ao anoitecer, ela achou que era hora de retornar, o que significava fim das brincadeiras. Como toda criança estrebuchei, chorei, mas fui levado de volta. No caminho, ao passar por um grupo de amigos um deles perguntou – Ói Marcos, essa é sua mãe? Com raiva como estava e ainda choramingando respondi que não. Recebi de minha mãe o cocorote mais doloroso do mundo. Pela primeira e única vez, recebi dela um castigo físico. Estranhei a violência e também porque ela chorou junto. Só muito depois entendi que a negativa tocara-lhe a alma de negra que tivera um filho branco. Antes tivera outro filho - José Maria - meu irmão negro, que morreu aos primeiros vagidos. O sobrevivente, alourado e de olhos claros, que ela parira, em casa, na Rua Alexandre Baraúnas, como era costume, negara-lhe a maternidade.

Tinha lá suas estranhezas, a minha mãe. Um dia meu pai me pediu para ter cuidado, por aqueles dias, por que a velha Iris havia sonhado com casamento e isso geralmente significava morte na redondeza. Não lembro se dessa vez a premonição foi verdadeira.   

Ela era protestante, embora desrespeitasse algumas das recomendações do cristianismo. Não ligava, por exemplo, para a afirmativa de Jesus de que o que torna impuro é o que sai, e não o que entra pela boca, pois me fez recomendação estrita para nunca comer sangue, em respeito à recomendação veterotestamentária. Daí, sempre sentir-me culpado, mesmo já adulto, ao comer a deliciosa galinha à cabidela feita por dona Maria, lá no Bar do Chico. Evitava quase todo o sangue, mas temia o castigo de engasgar-me com algum pedacinho de osso da galinha.

Pouco ortodoxa também era sua atitude de levar-me, às ocultas, ao fundo do quintal, para fazer orações à lua nova. Não lembro que palavras dizia, mas sei que fazia pedidos, mostrava objetos, minha camisa, a carteira de cédulas do meu pai, etc. Depois pedia segredo sobre o ato, em uma atitude muito parecida a dos marranos de Belmont em Portugal.

Minha prima Carmelita, em resposta a freqüentes solicitações sobre qualquer documento que esclarecesse os seus ancestrais, certa vez mostrou-me uma velha carteirinha da Assembléia de Deus, onde constava que o nome do seu pai era Manuel Pedro Varela, e de seus avós maternos, Antonio Ferreira da Costa e Francisca Raimunda de Jesus. Nos registros paroquiais de Areia Branca encontrei o seu batismo feito no dia 21/01/1921, filha legítima de Manuel Pedro Varella e de Maria Ferreira da Costa. Padrinhos: Manuel Leandro e Mariana Vasconcelos.
Uma única foto dela me restou. A foto do seu título de eleitora, já agora desfigurada, descaracterizada. Gente pobre era assim: foto só para documentos. Ficou a do coração, bem clara e para sempre.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ANIVERSÁRIO DE KAIRÓS




No mês passado, este blog completou um ano em atividade. Foram 55 postagens que receberam mais de 5000 visitas, numa média de 416 por mês, embora só constem 14 seguidores. Não sei se foi muito ou pouco, mas a natureza dos assuntos, aponta para visitas ou pesquisas qualificadas, já que do blog estão excluídos assuntos especializados em áreas chamativas e polêmicas expressando apenas minha visão pessoal, original.

Tal como o deus grego Kairos, que se refere à qualidade e não à quantidade dos momentos vividos, acredito que os buscadores desejavam algo assim, quando iniciaram suas buscas. Aqui chegaram utilizando palavras chaves como Kairos,charadas difíceis, manias de escritores, curso de matemática, genealogia, banqueiro século XIX, Gigliola Cinquetti, traição de Francesco Burlamacchi,  e a própria denominação do blog, dentre outras.

As visitações foram encaminhadas predominantemente a partir do www.google.com.br (1.794), seguido de www.facebook.com (157), sitio onde compartilho cada nova postagem. Outras vieram de outros sites de busca, do Orkut e de blogs pessoais. Originaram-se principalmente do Brasil (4.397), seguido pelos Estados Unidos (214) e Portugal com 153 visitações. 

O maior número de visitações ocorreu no mês de agosto (638), seguido pelo mês de outubro (629) de 2011. O mês de menor número de acessos foi novembro de 2010, quando o blog iniciava (99).

Cinco postagens foram mais populares: VECCHIA AMERICA (588 visualizações), O TIJOLÃO DO PROF. MANUEL JAIRO BEZERRA (340 visualizações), A CHARADA É UM POUCO DIFÍCIL, (3,2) (199 visualizações), OS LIVROS DA EDITORA MIR (163 visualizações) e 2011 - ANO DA ITÁLIA NO BRASIL com 95 visualizações. 

Foram feitos 45 comentários. Os posts mais comentados foram INESPERADO REENCONTRO COM O XADREZ, e O ABUSO DO POLITICAMENTE CORRETO, ambos com oito comentários.

No fundo, cada postagem teve a intenção de servir culturalmente. Muito obrigado.







terça-feira, 6 de dezembro de 2011

SOBRE O PECADO


Por mais afastados que estejamos dos assuntos religiosos, não nos podemos furtar da reflexão sobre esse tema, e quer nos orientemos ou não, nos variados atos do drama humano, pela vertente religiosa, no fundo, será sempre pelo norte ético que nos guiaremos. Se assim não procedermos, se ferirmos mores e costumes, pagaremos com o julgamento da consciência, porque dentro de cada um de nós existe o conhecimento do bem e do mal. A sanção, o castigo, vem, pois, primeiramente de nós mesmos.
 
Na minha teoria pessoal do pecado, vejo-o caracterizado de duas maneiras: primeiro como algo que direta ou indiretamente prejudica alguém; e em segundo lugar, ligado ao velho conceito hebreu de idolatria, no sentido de escravidão a algo que nos afasta da nossa missão mais essencial, nos prejudicando. Aliás, não é outra coisa que se acha expressa nos ensinamentos religiosos.

Expliquemos nosso raciocínio com a importantíssima questão do sexo. De duas formas será pecaminoso: se praticado sem o desejo e o consentimento dos envolvidos na relação, ou quando se transforma em atividade reificada, principal dos indivíduos. Fora disso não há pecado.

No primeiro caso, faltando o desejo e o consentimento, estará caracterizado o estupro, a prostituição ou a traição. Na segunda forma é caso típico de idolatria, como também o é o exagerado apego ao dinheiro, ao poder, à alimentação e a tudo que impeça ou perturbe a realização da nossa essência, que para o religioso significaria amar a Deus sobre todas as coisas. Em ambos os casos fere-se alguém.

A literatura bíblica afirma que todos os pecados serão perdoados, menos aqueles cometidos contra o espírito. E também que somos templos desse espírito, que entendo como dignidade humana, o que há de mais profundo e significativo dentro de cada um de nós.

O castigo da idolatria não será a descida de fogo do céu para matar o pecador, mas a sensação de enfraquecimento espiritual, o sentimento de que nos afastamento do nosso centro, de que desperdiçamos a existência em desvios malsãos. O castigo por ferir o semelhante deverá ser de âmbito da moral, do sentimento de culpa e da justiça, e que no final também ocasionará prejuízos ao espírito. Assim, acredito que o pecado seja de natureza relacional (eu, comigo mesmo, ou com você). 

Embora não seja necessária a admoestação religiosa para evitá-lo, ouçamos as lições dos sábios sobre isso. Conta-se que alguém que desejava converter-se ao judaísmo pediu que o muito célebre Rabi Akiva recitasse toda a Lei, enquanto permanecesse sobre um dos pés. Não faças aos outros o que não queres que te façam, essa é a Lei, e tudo mais é comentário, teria sido a resposta do sábio.

Na mesma linha de pensamento, da qual, aliás, não poderia fugir, pois também era judeu, o Rabi Jesus recomendou que amássemos o próximo como a nós mesmos e a Deus acima de tudo. Em ambos os casos o que se pede é em primeiro lugar o respeito à própria dignidade pessoal, e em segundo, que se respeite a alheia: ame-se para amar o próximo. Observando ambas as recomendações estaremos, sobretudo respeitando o divino que há em nós e que no pecado é maculado. Nada mais se pode acrescentar sobre o assunto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DIÁRIO DE UMA CRIANÇA CONFUSA

Hoje meu amigo Gabriel disse na escola, pra mim e pro Rafael, que ele tem um caderno que diz que é um diário. Ele não deixa ver. Daí me deu vontade de ler seus segredos. Meu pai não quer que eu vá brincar com ele na sua casa por que ele tem dois pais, um tem bigode e o outro não tem, parece uma mulher. Não sei por onde anda sua mãe. Minha mãe riu quando uma vez eu perguntei por que Gabriel tinha dois pais e eu tinha um pai e uma mãe. As vezes eu fugia  e ia brincar com ele.  Jogávamos bola com o pai de bigode e com outros meninos no quintal. As vezes brigávamos. Um dia Rafael brigou com Gabriel por causa de um gol, pois a bola não tinha entrado. Nesse dia o pai de bigode não estava, foi então que Gabriel bateu em Rafa, e Rafa disse que os pais dele eram viados e ele também. Gabriel bateu de novo nele, mas chorou depois. Na escola fizeram as pazes e ficamos juntos novamente. 


Um dia Rafa roubou o diário de Gabriel e me chamou pra ler escondido. Eu queria saber seus segredos, fui ler. Mas Gabriel descobriu, seguiu a gente e tomou de volta seu caderno. Só deu pra ler algumas partes. Ele não sabe escrever, só diz os dias.

 “Dia 25. Meu pai me ensinou a brincar no seu computador, mas foi rápido, chegou meu outro pai, se beijaram, desligaram o computador e foram para a cozinha. Ouvi meu pai dizendo; faça a barba homem que assim me fere... ”

“Dia 12. Tomamos banho todos juntos, nus. Eles notaram que eu estava olhando muito pra ... eles, então começaram a brincar comigo jogando água... e fizeram cócegas. Depois fomos comer pizza. Um dos garçons é amigo do meu pai. Ele chamou um dos meus pais de menina. Ele disse: calma menina! Meus pais brigaram no carro, pois um disse que o outro estava olhando muito pra não sei que rapaz. Daí o outro disse: e você, pensa que não sei de você e Michel? Trouxemos uns pedaços de pizza pra casa, mais comemos no caminho.” 

“Dia 25. Sonhei que um monstro estranho e colorido me perseguia. Devo ter gritado, pois quando acordei meus pais estavam lá comigo e disseram para dormir de novo. Cada um me beijou e me cheirou. Agora lembro que, no sonho eu tinha uma mãe.” 

“Dia 07. Ontem foi dia de festa aqui em casa. Meus pais convidaram um monte de gente. Alguns dos amigos trouxeram seus maridos ou namorados. A Anna também veio. Não gosto dela. Ela só quer tudo pra ela e me arranha e eu não posso bater nela. As mães dela, Elisa e Mary Ellen, me disseram, no meu ouvido, que se eu bater nela eu apanho. O John, amigo de meus pais, olha muito pra mim, acho ele horrível com aqueles brincos, cabelo colorido e calças apertadas. - Que garotinho lindo - ele sempre diz - vem cá pra eu ti dar um beijo amor! Eu sempre corro dele. As vezes ele traz garotos com ele, sempre novos garotos. Um dia perguntei se eram filhos dele, meu pai disse que não. Meu outro pai riu muito e disse que eu fosse brincar.

“Dia 20.Briguei com o Rafa, bati nele, ele disse que meus pais são viados, bati então com mais força nele. Tenho ódio. Pensei que ele era meu amigo”.

“Dia 05. Fui estudar na casa do Pedrinho. A mãe dele fez suco e sanduíches. Estudamos até as cinco horas. A irmã dele é muito bonita e tem um cheiro muito bom. O pai dele chegou do trabalho e brigou com Pedrinho por ter desarrumado suas coisas. Depois ouvi ele dizer baixinho pra mãe de Pedrinho: - que é que esse viadinho tá fazendo aqui em casa? A mãe dele disse: homem não diga isso, ele pode ouvir, coitado.”

“Dia 30. Tive outro sonho com o monstro colorido. Como sempre ele corria pra me pegar. Não vi minha mãe dessa vez. Acordei e corri pro quarto de meus pais e vi que estavam nus e um estava em cima do outro...”

Foi só o que deu pra ver no caderno. Acho Rafael muito mal, pois ele disse que ia contar pra todo mundo. O Gabriel chorava muito e gritava e saiu correndo com o caderno.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O QUINTO MILAGRE


Segundo os físicos, nosso corpo, e também o de todos os demais seres vivos, é um sistema aberto. Temos que retirar energia do ambiente para fazê-lo funcionar, e como numa máquina, há perdas, há dejetos. Já nascemos com certos controles que são acionados automaticamente nos momentos certos, a fim de que possamos manter o sistema. O produto final é a sobrevivência. Somos cheios desses controles que nos incitam à ação durante toda a nossa curta vida. A alguns deles chamamos de instintos.

O fluir da energia através do sistema causa desgastes nas peças utilizadas. Vão ficando velhas, usadas, quase imprestáveis. O pessimista Eclesiastes, escrito por Salomão, talvez num daqueles dias terríveis, em que tudo deu errado lá pelo reino, pinta o quadro sintomático da decrepitude humana (Ecles. 12:3) 

...no dia em que tremerem os guardas da casa, os braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas...

Mas elas, as peças do corpo, não se desgastam todas por igual. Algumas vêm com defeito de fábrica, outras são mais ou mal utilizadas, e com a falência completa daquelas importantes, o sistema cessa de funcionar. Costuma-se denominar o desgaste contínuo, de envelhecimento, e o cessar da atividade do sistema, de morte.

O que fizemos durante todo esse tempo em que a energia fluiu pelo sistema? Resposta simples: vivemos, seja lá o que for que isso signifique para cada um.

Na morte, com o retorno dos elementos à terra de onde saíram, enxerga-se com mais clareza a degradação do corpo, a aparente vitória final da entropia, do caminho sem retorno delineado pelas leis da termodinâmica. Em um poema, dizia meu avô Tibério Burlamaqui diante dessa idéia:

Quando contemplo a sordidez dum verme
No baixo chão, nas cousas deletérias,
Das cloacas, dos monturos, das misérias
Da carne humana putrefata, inerme

Sinto um frio mortal pela epiderme
E ante o evoluir e força das matérias,
Creio e descreio em deduções bem sérias
Tremo com medo que meu corpo enferme

Contudo, mesmo o olhar mais displicente sobre o esquema acima, caracterizado por nascimento, crescimento e morte, deixa ver uma contradição fundamental entre a entropia, ou seja, o irreversível avanço para a desordem cada vez maior, e a vida, que atua exatamente no sentido contrário - a negentropia. E vem à mente uma questão, não sobre a manutenção organizacional de um ser vivo, mas sobre o momento exato do surgimento da vida: como foi possível surgir no Universo, algo que contraria frontalmente a segunda lei da Termodinâmica? E mais, como se manteve a despeito dela? A resposta não tem sido fácil e não é possível contornar o problema.

Há muito tempo que os experimentos de Stanley Miller e as idéias do sábio russo Oparin perderam sua importância. Em 1985, Leslie E. Orgel, em As Origens da Vida, ainda percorre os mesmos caminhos da formação de compostos pela ação de relâmpagos, da energia ultravioleta, das ondas de choque iniciais, chegando ao ponto chave: O principal problema intelectual apresentado pelas origens da vida está relacionado...a evolução da organização biológica. É isso mesmo, a solução não está no instante em que se formam tal ou qual aminoácido, mas ao surgir um mecanismo complexo como o da fotossíntese ou da respiração, altamente organizado e completamente contrário ao esperado. Afinal de contas, os relâmpagos, ondas de choque, etc, parecem ser muito mais agentes da entropia que o contrário.

Em 1997, Robert Shapiro, autor de outro livro especializado sobre o assunto, Origins: a Skeptic’s Guide to the Creation of Life on Earth, nada conclui, senão que:

Não conhecemos a receita essencial – o conjunto de ingredientes especiais e as formas de energia capazes de conduzir sistemas químicos pelo caminho da organização, nos primeiros passos da vida.

Esse caminho da organização, remando contra a maré da entropia, é que é o problema.

Mais tarde, em 2002, Paul Davies, em O Quinto Milagre – Em busca da origem da vida, diz que Parecemos estar diante de uma contradição perturbadora, e admite que a vida deve ter surgido através de um evento singular, que denomina brecha na entropia, sugerindo que a instabilidade gravitacional surgida logo após o Big Bang, seria responsável pela brecha, fazendo as coisas caminharem no sentido inverso à termodinâmica, até o surgimento da vida. Admite porem, que:

Fazer a fonte de informação remontar à gravitação e ao estado homogêneo do universo pouco depois do Big Bang, ainda nos deixa com o problema da semântica. Como foi que surgiu a informação significativa no universo?

Mais adiante capitula:

O que ainda falta explicar – o que sobressai como o enigma central não resolvido na explicação científica da vida – é o modo como o primeiro micróbio passou a existir”

O que dirá sobre o assunto, o arrogante Richard Dawkins, autor de Deus – um delírio (2007)? Na verdade ele nada tem a dizer, admitindo mesmo sua ignorância sobre a Química, que julga responsável pelo esclarecimento da questão. Mas admite a quase improbabilidade do surgimento da vida, para logo em seguida ensaiar uma explicação probabilística considerando o tamanho do universo.

Até agora, a verdade é que continua valendo a palavra de Jules Carles, no seu livro As Origens da Vida, quando afirmava em 1984, que a passagem da matéria inanimada à vida, fica por explicar e é mesmo cientificamente inexplicável. 

E o meu avô Tibério, sem fazer essas reflexões científicas, terminou intuitivamente seu poema negentrópico: 

Penso depois, talvez com fundamento,
Que dentro de mim mesmo alguém labuta,
Contra o invol’cro carnal e entendimento

É minha alma, Senhor, alma impoluta
Que um dia ascenderá ao firmamento
Livre da terra e da matéria bruta