quinta-feira, 14 de abril de 2011

...HOMEM E MULHER OS CRIOU.


Embora existam espécies que se reproduzem assexuadamente (quando só há fêmeas), há vantagens na reprodução sexuada (quando há machos e fêmeas) pela maior variabilidade genética que traz aos descendentes. Essa vantagem foi “percebida” pela evolução e se espalhou. É por isso que a reprodução natural, nos seres humanos é fruto das estratégias de acasalamento de machos e fêmeas, cada um trazendo seu histórico genético para o namoro.
 
A antiguidade não sabia dessa coisa de ciência; mas não ficava calada, utilizava o mito para explicar essa e outras questões: Deus nos criou homem e mulher, e viu que era bom. 

Eis aí, então, a vida expressando-se nos humanos, por duas vias: homem e mulher. Duas visões de mundo determinadas biologicamente - anatomia é destino, diria Freud. Contudo, pela própria caracterização física destes diferentes, vê-se que estão destinados ao encontro. Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à mulher, tornando-se os dois uma só carne, dirá o mito. Todo o desenvolvimento e amadurecimento sexual por que passamos, não tem outra razão senão nos preparar para esse momento. 

Mas esse encontro entre homem e mulher pode não acontecer, nem mesmo ao nível potencial do desejo. Isso quando um deles, pelas mais variadas razões, não consegue “enxergar” o outro e permanece preso ao seu próprio sexo, tornando anódino, todo aquele esforço evolutivo, toda a energia despendida na formação sexual do indivíduo. Nesse caso, mesmo que o afeto dirigido à outra pessoa, ao nível de percepção sensorial dos envolvidos, seja tido como satisfatório, permanece intragenérico, num relacionamento que por mais que defendido e aceito, não passa de monólogo infrutífero.

A satisfação individual, nesses casos, não necessita de justificação. Cada um é o que é. Não há necessidade de tentar esvaziar, como procuram fazer alguns, o conceito da bissexualidade humana, vinculando-o a uma visão recente, logo, histórica, relativizando o papel dos parceiros, conduzindo a uma discussão infindável que leva à redução de tudo isso à lingüística, como nas afirmativas lacanianas.

Tal tentativa morre aos pés daquela base biológica, produtora de filhos, cujo inicio, na historia da vida, de tão antiga é impossível datar. Assim, em torno dos pólos macho – fêmea,  é que se desenvolverão variantes, possibilitadas pela plasticidade mental da espécie, mas sempre tendo aqueles pólos como referencia básica. Seja o que for que o homem faça, ou fantasie, é-lhe tão impossível fugir aos limites de seu sexo biológico, quanto sair de sua pele.

Outros, sentindo o nonsense das razões anteriores, mergulham na inócua e desnecessária tentativa de utilizar os conceitos universais da filosofia chinesa de Yin e Yang, numa sutil justificação desses tipos de relacionamentos, argumentando que, mesmo aí, continua existindo a bipolaridade ativo – passivo, novamente ignorando a inelutável definição biológica, assumindo, dessa forma, a defesa de um arremedo daquela relação arquetípica. 

Essas pessoas, fadadas ao solilóquio, por não enxergarem o outro gênero, devem ser respeitadas no seu direito de monologar, embora biologicamente nascidas para o diálogo. Mas que não se formalizem direitos específicos. Ou tão exageradamente abrangentes a ponto de criminalizar qualquer tentativa de criticá-las ou entende-las, mesmo que a nível puramente comportamental ou filosófico. Direitos específicos só devem ser direcionados para aqueles que os merecem, mercê de uma patente deficiência ou enfraquecimento: cegos, aleijados, idosos, etc.

Há de se ter cuidado, na defesa desse direito, para que no exagerado esforço em busca de igualdade, não se invertam os valores, pondo os que estabelecem uma saudável conversação intergenérica, quase como inferiores. Estes, que ainda são maioria, seguem sendo os que em nosso mundo, cumprem a milenar ordem genética e mítica do verdadeiro encontro produtor de vida.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

HIPOCONDRIA

Tenho dois velhos amigos na Universidade, que disputam qual deles é mais hipocondríaco. A última vez que encontrei um deles, falei que poderia estar sofrendo de apnéia do sono. Na verdade errei a palavra e disse – dispnéia do sono. Foi o que bastou para que ele disparasse parte do seu conhecimento enciclopédico sobre doenças:
- Não é dispnéia, é apnéia do sono – falou categórico. Em seguida discorreu com autoridade sobre os testes para diagnóstico,tratamentos e riscos.
- Você pode morrer de madrugada, não é moleza – vaticinou com sua experiência. Resultado: perdi várias noites de sono, tentando atalhar a morte que nunca veio.
O outro, em diálogo mórbido, contou-me suas últimas doenças e todos os exames efetuados. Foi um tal de apalpa daqui, fura de lá, ultrassonografia, Raio X, um exame dolorosíssimo da próstata, outro vergonhosissimo, para saber no final que estava tudo bem. Depois, prestimoso, estimulou-me a que fizesse o mesmo, do contrário poderia pagar caro mais adiante. Ele conhece até o código internacional de doenças.
Eles nem imaginam que sofro do mesmo mal. A coisa aqui vem de longe. Minha primeira manifestação dessa queda para a medicina veio quando eu estava com cerca de quatro anos. Uma menininha da vizinhança infelizmente não resistiu à difteria. Eu estava jantando quando minha mãe disse que ela tinha dificuldades para deglutir. Pronto, não consegui engolir mais nada. Tive a certeza absoluta de que eu seria a próxima vítima, afinal éramos muito próximos, eu e a Maria.
Não acredito nessa história de ressurreição, mas deveria, eu sou a prova viva de que é verdade, pelas tantas vezes que já morri e continuo por aqui. Já morri de caxumba, cobreiro, diarréia, de choque anafilático (essa vacina contra a h1n1 quase me leva), de hidrofobia (meu gato me mordeu) e por aí vai. Basta dizer que todas as minhas dores são cancerosas.
Como gosto de ler, em todos os casos saí com um conhecimento exuberante sobre esses casos clínicos. Mas não vou ao médico. Eis a minha diferença e meu ponto fraco diante dos meus colegas. Morro mas não vou ao médico. Nem gosto de tomar remédios.
Mas houve uma época que pensei em estudar medicina para aproveitar todo esse talento.  Teria sido tempo perdido. Não teria passado do terceiro ano. Moacyr Scliar, fala da síndrome do terceiro ano do curso de Medicina. É só até onde vão os hipocondríacos. Depois das cadeiras básicas, vem o ciclo clínico, e aí, sai de baixo: tome descrição de doenças e conseqüentes manifestações dos sintomas nos doentes imaginários.
O caso é sério. Scliar conta que recebeu um telefonema de um colega dizendo que não tinha a menor dúvida que estava doente e era grave. Analisara com cuidado todos os sintomas e tinha a mais absoluta das certezas, estava com lupus eritematoso sistêmico. Quando Scliar disse que a doença era mais comum em mulheres ele mudou o diagnostico pra gripe, mas continuou doente.
Vocês conhecem o caso de Abraham Lincoln? Na sua família era comum a ocorrência de paralisia e ele passou a vida inteira esperando por isso. Certa vez, estava jogando xadrez com uma moça quando de repente ficou extremamente pálido. Ela perguntou o que estava acontecendo e ele então se referiu ao mal familiar e que havia beliscado a perna várias vezes nada sentindo, portanto havia chegado o tão esperado momento de ter a sua paralisia, ao que a moça disse – Não se preocupe você estava beliscando a minha perna.
Para não cair mais no ridículo, como esse de Lincoln, de achar que vou morre e não ser verdade comprei o livro Manual de Primeiros Socorros para Hipocondríacos de Jaime Gorman.
O autor entende do ramo e o seu manual é muito instrutivo. Não passei, porém, do primeiro capítulo sobre o mal súbito. Ele não leva a sério nossa condição e o que é pior, fez-me rir tanto já no início do livro que fique com claros sintomas de que poderia ter um ataque de apoplexia. Isso mesmo, essa coisa que junto às febres, matava os personagens de romance antigamente. Hoje morrem de bala perdida ou de overdose.
 
Deixo aqui, para os meus dois amigos, as sábias recomendações colocadas na introdução do livro, para que a partir de agora possam seguir de forma científica sua mania:
1.Esteja alerta. As pessoas podem rir de você por ter um pulmão artificial na garagem ou um balão de oxigênio na dispensa, mas não importa. Você nunca sabe quando vai parar de respirar.
2.Seja ousado. É melhor dizer que “Estou com uma úlcera” do que “Não estou me sentindo bem”.
3.Tenha clareza nos seus objetivos.Afinal você quer um quarto no hospital, ou apenas um cobertor e um copo de leite quente?
4. Entre em pânico. Essa conversa de que é bom manter a calma é bobagem.
E como remate, essa frase lapidar do autor: Doença é como radiação atômica. Nem um pouquinho é aceitável. Todo problema de saúde, desde decapitação até um arranhão, deve ser tratado com a maior seriedade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

NOMEAR TAMBEM É ARTE

Tenho fascinação por certos títulos ou denominações. Sejam de livros, filmes ou lugares. Excluindo dessa reflexão os títulos técnicos, que primam pelo rigor em detrimento do valor estético, alguns outros me conduzem de imediato, como num passe de mágica, ao mundo imaginativo, profundo do inconsciente, extrapolando às vezes, a intenção inicial da denominação. É como se fizessem soar no meu interior, uma nota musical, harmônica ou dissonante, puramente espiritual. Clarice Lispector declarou que quando jovem, escolhia os livros pelos títulos, sem conhecimento dos seus autores, quem sabe, levada pela mesma razão.
E assim vem-me imediatamente à lembrança, no nosso estado, a poética denominação do município de Caiçara do Rio dos Ventos. O pronunciar desse nome, faz o pensamento voar por entre a armação da paliçada indígena, levado pelo vento, através das curvas do rio. Que poeta terá conjugado pela primeira vez a caiçara, aos efeitos eólicos observados, criando essa beleza de nome? Rio dos Ventos já nos encantaria sobejamente. Há outros, ainda, que provocam taquicardia lírica, como disse Câmara Cascudo: Verde Nasce, em Ceará-Mirim, Cacimba das Moças, em Currais Novos e Riacho dos Noivos, em Caraúbas. E para não se dizer que só falei dos nomes do meu estado, cito este do Maranhão, pelo esplendor que dele parece emanar: Nossa Senhora da Luz do Paço do Lumiar.
Quanto aos livros, antigamente os títulos eram longuíssimos, verdadeiros resumos da obra. Vejam por exemplo o título de um trabalho, referenciado no inventário do Pe. Faustino Gomes de Oliveira, sobre os cuidados com a saúde, que os marinheiros deviam ter durante suas longas viagens: Aviso à gente do mar sobre a sua saúde: obra necessária aos cirurgiões de navios, e em geral a todos os marinheiros, que andam  embarcados em navios, aonde não ha cirurgiões. É livro do século XVIII. Nonada diante do que se propaga por aí, que o título de livro mais longo já registrado, seria composto de nada menos que 670 palavras. Este texto, até aqui possui 279.
Modernamente, o irreverente e excelente Charles Bukowski, que Sartre dizia ser o melhor poeta da America, tem utilizado títulos longos para seus contos e poemas. Algum dos leitores já correu o risco de ter se encontrado com Bukowski? Vejam por exemplo Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amem, ou O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio, suplantados, ambos, por Em defesa de um certo tipo de poesia, de um certo tipo de vida, de um certa tipo de criatura com sangue nas veias que um dia morrerá. Nada me evocam de belo, são apenas a expressão da irreverência do autor.
Já o título do livro de Dinah Silveira de Queiroz, Floradas na Serra, traz toda a beleza da vida desabrochando nas encostas e no cimo da Serra, derramando-se pelos vales. E como as belas flores que imagino, não são outra coisa que órgãos sexuais, trás a idéia de amores nascentes, de fato retratados naquele romance. A vida parece ressurgir também no título da escandalosa autobiografia de André Gide, Si le grain ne meurt (Se o grão não morre), referência a passagem bíblica sobre o grão de trigo. Escandalosa, à época, pelas descrições de cenas de pederastia e da vida debochada de Gide. Ele, alias, impediu que Galimard (editor da Nouvelle Revue Française) publicasse a primeira edição de A la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido) obra prima do também francês, Marcel Proust, cujo segundo volume possui o belíssimo título de, À l’ombre dês jeunes filles en fleurs (À sombra das moças em flor).
A tradução brasileira para Wurthering Heights – O Morro dos Ventos Uivantes,(bem mais bonita que A Colina das Ventanias), quase que nos faz ouvir os sons produzidos pelos ventos ao passar entre as montanhas, e tenho a impressão que sempre à noite. Assusta-nos tanto quanto o fantasma de Catherine assombrava Heathcliff: -  Heathcliff, it’s me, Cathy, I’ve come home...I am so cold, let in your window…
Sem querer me alongar demasiado no assunto, porque esse tipo de apreciação depende do gosto de cada um, lanço um olhar rápido sobre os autores que nos são mais próximos. Cinjo-me aos mossoroenses mais consagrados. Estes não foram bons nos seus títulos, ou talvez não tivessem a intenção estética ao nomear suas obras. Assim é que O Aprendiz de Camelô, de Jaime Hipólito Dantas, A Rua de Jaime e outros temas, de Elder Heronildes e Os Dias de Domingo de Dorian Jorge Freire, o primeiro contos e os outros, crônicas, cativam mais pelo texto. Mas são, sem dúvida, bem melhores do que os títulos anatômicos Lápis na Veia de Clauder Arcanjo e Coração, Cabeça e Estômago, do grande Camilo Castelo Branco. Alias, a estes se podem juntar, com facilidade, os títulos dos dois romances de Paulo Francis, Cabeça de Papel e Cabeça de Negro.
Outros foram mais criativos. Vejam, por exemplo, Baú de Ouropéis, do poeta Jomar da Costa Rego, onde ele ao juntar escritos diversos em um único livro julga-os com o valor de miçangas, jogadas a um canto. Chego quase a ver o brilho dessas contas, de valor apenas aparente, postas no baú. Nenhum melhor, porém, que o memorialista Raimundo Nonato da Silva. Escritor fértil, de obra vastíssima, só eu tenho 38 dos seus livros, titulava de forma magnífica: Zona do Por do Sol, Os Arrancadores da Arca da Botija, As Miragens da Estrada do Sal, Varal de Memórias, Quando cai o Nordeste, Viagem pelo Vale da Solidão: suma das memórias do sem fim são alguns exemplos das denominações que deu às suas memórias. Acredito que não haja, dentre os habitantes deste rincão, quem não se enterneça, como eu, com esses títulos, todos com significados profundamente telúricos e belos.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A POSSÍVEL ORIGEM DOS SEUS OLHOS AZUIS

Sempre que encontro minha prima Carmelita, terminamos por falar da nossa avó Maria Ferreira da Costa ou Maria Pedro, nascida ali em Jaguaruana, no Ceará, falecida com mais de 90 anos. Era casada com Manuel Pedro Varela, daí o Pedro, popularmente adicionado ao seu nome. Desta vez, alem do nosso assunto habitual, surgiu a questão da origem dos meus olhos azuis.

– Maria Pedro tinha os olhos azuis – diz ela - mas nem seu pai, nem sua mãe, filha dela, tinham. Expliquei, então, que minha outra avó Luisa Filgueira de Souza, também possuía essa característica. E sigo, com ar de doutor, pelo blablablá genético da recessividade, falando da necessidade de que meus pais teriam que trazer os genes dessa cor, para que ela se expressasse em mim.

– Meu pai tinha o gene que vinha da mãe dele, e minha mãe o que vinha da mãe dela – Carmelita fica pensativa, aceita o argumento, mas prefere aprofundar o assunto.

– Mas de onde viriam esses “galegos” aqui da região? – Ela se refere ao blounder, à “louridão”, aos cabelos louros e olhos azuis no Nordeste brasileiro. A questão obriga-me a continuar com essa incomoda pose de mestre, e lá vou eu, aproveitando o que li recentemente na imprensa. 

– Comecemos pelo começo, como manda a boa lógica. Os cientistas da Universidade de Copenhagen divulgaram, em 2008, o resultado de estudo com o DNA de aproximadamente 800 pessoas com olhos azuis, desde os loiros escandinavos aos turcos de tez escura. Explicam que no princípio todos teriam olhos castanhos e que uma mutação teria surgido entre o Crescente Fértil e o Noroeste do Mar Negro, hoje compreendendo a Turquia, há seis ou dez mil anos. 

E vou adiante – De acordo com os mesmos pesquisadores, a manutenção da característica deu-se dentre outros fatores, pela preferência sexual dos homens de olhos azuis por mulheres com olhos da mesma cor. 

– Não, nessa de preferência eu não acredito – diz-me ela –  você, por exemplo, escolheu casar com uma morena – e antes que explique que essa coisa de genética tem haver com estatística, não com casos particulares, ela se retira e não espera pelo resto da conversa que viria na certa.

As grandes migrações de agricultores, ocorridas naquele período, teriam transportado esta mutação para a Europa. E é aqui que começa a viagem dessa característica até o Nordeste, onde todo mundo já encontrou, pelos sertões a fora, esse tipo louro, de olhos azuis, com estatura acima da média. A explicação para a presença dessas características por aqui, desde alguns séculos, não é pacífica.

As opiniões se repartem entre as influências francesa, portuguesa e holandesa. Quanto à primeira, dada a exigüidade da participação gaulesa na região, facilmente se descarta como importante. Também no caso dos portugueses. Parece que os que vieram, foram em sua maioria mesclados de judeus e berberes, do Sul de Portugal, portanto morenos, com pouca contribuição. Restam os holandeses. 

Mas será que apenas trinta anos de domínio do Nordeste, teria sido suficiente para essa contribuição? Parece que sim. Afinal, os estudos genéticos mostram, na região, uma freqüência de 19% de cromossomos Y, do haplogrupo 2 (de origem européia), que se atribui à invasão holandesa. 

Apesar de ter havido clara proibição de contatos mais íntimos com os da terra, talvez não tenha sido exígua a contribuição holandesa para nossa etnia. Consegui rastrear vários casamentos de portuguesas ou brasileiras, com holandeses, durante aquele distante período do domínio batavo, que fortalecem essa opinião.  

Um primeiro caso é o de D. Anna Paes, rica e bela pernambucana, proprietária do Engenho Casa Forte, que enviuvando, foi engraçar-se com o Capitão Carlos Tourlon, comandante da guarda do príncipe Maurício de Nassau. E não parou por aí. Com o falecimento deste, voltou a casar com outro daquela etnia, Gilberto de With, membro do Conselho Supremo do Recife. Por conta desses enlaces, um padre daquele período, o Frei Manuel Calado não lhe poupa “elogios”. O menos que lhe acusava era de não estar casada, mas sim amancebada com hereges. 

Outra ricaça Dona Maria de Mello, também casou com um holandês, o Capitão de Cavalaria, Gaspar Van Niehof Van der Ley. Mas nesse caso, não houve problema com a Igreja, já que o Capitão largara o calvinismo e convertera-se ao catolicismo antes do casamento. Seus descendentes originaram a família Wanderley, vastíssima por toda a região. 

E ainda outra, Apolônia de Araújo, viúva do cristão-novo Rui Carvalho Pinheiro, enveredou pelo mesmo caminho, convolando núpcias com Francisco de Brá, um dos invasores que ficaram por aqui, após a expulsão.

O Comandante Joris Garstman Van Werve teve participação na história do Rio Grande do Norte tendo sido o primeiro a comandar o Castelo Keulen (Fortaleza dos Santos Reis, antes de sua tomada). Foi casado com uma filha de João Lostao Navarro, espanhol que por aqui vivia. Lostao foi morto no massacre de Uruaçu. Deixaram também larga descendência através da família Gracisman, aqui no RN e lá no Ceará.

A ojeriza da sociedade recifense se estendia, também às esposas brasileiras dos holandeses Hus, Goebell Will, Van Brolmd, Van der Hart, e Van der Schomemborde, dentre outros casos.

Como se pode ver nesta rápida digressão, parece que os casamentos registrados, são apenas a ponta do iceberg, sendo prováveis muitos outros contatos entre holandeses, e os habitantes já aqui residentes. Não se há de acreditar que, centenas de invasores tenham permanecido fieis às suas esposas distantes, ou em abstinência sexual por trinta anos. Os descendentes de casamentos realizados em período tão afastado, através dos múltiplos entrelaçamentos ao longo dos anos, distribuíram aqueles genes, praticamente por todo o Nordeste e outras regiões do nosso imenso país. 

E se Carmelita tivesse tido a paciência de ouvir essa história até aqui, era chegada a hora em que eu diria, que foi essa pelo menos uma das fontes dos genes “galegos” da minha avó, pelos Ferreira da Costa, que mais antigamente se assinavam, “Ferreira da Costa Lima”, descendentes da família Gracisman, originada naquele “Comandeur” holandês, Joris Garstman

Também teria sido essa, caro leitor, a origem dos seus olhos azuis?

quinta-feira, 17 de março de 2011

TSUNAMI NO NORDESTE


O filme Síndrome da China, de 1979, trata da cobertura jornalística do problema ocorrido em uma usina nuclear na Califórnia. Tem esse título pela seguinte razão: dizia-se, erroneamente, que se o reator da usina derretesse, faria um buraco que atingiria o outro lado do mundo – a China. Aqui pelo Nordeste, quando criança, dizíamos quase a mesma coisa: se furássemos um poço na superfície terrestre, até atingir o outro lado, atingiríamos o Japão. 

A velocidade de circulação da informação tornou o mundo pequeno. Aquele contato com o outro lado do mundo, hoje é feito com uma rapidez espantosa através dos mais variados meios de comunicação, e de repente assistimos, da nossa poltrona, toda a destruição e dor da nação amiga, inclusive o perigo da fusão do núcleo das usinas nucleares, o que alguns estão chamando de Síndrome do Japão, em contraponto ao título do filme citado. Como sempre acontece, ao saber da desgraça dos outros, começamos a pensar na possibilidade de que também nos atinja. 

Sábado passado, na Livraria Independência, um dos vendedores – Silvio – me perguntou:
 – Professor, o que você sabe a respeito do tsunami que ocorreu no Japão?
– Sei apenas o que foi noticiado, respondi. Nenhum conhecimento aprofundado sobre o assunto.
– É porque eu queria saber quantos km, terra adentro, aquele tsunami teria alcançado. Informei que não sabia e indaguei por que ele estava precisando dessa informação.
– Estou discutindo com um colega que diz que se Tibau fosse atingido por um tsunami, Mossoró também seria atingida, que você acha?

Naquele momento, embora ríssemos da preocupação do citado colega, lembrei que tempos atrás, nas altas marés, o mar adentrava o Rio Mossoró, atingindo praticamente o centro da cidade. A área onde hoje está situado o mercado da Cobal era conhecida como “Salgado”. Lá havia um pequeno campo de futebol, onde só nasciam plantas halofitas como pirrixiu e bredo, As barragens construídas ao longo do Mossoró, além de represarem a água do período chuvoso, passaram a impedir essa inundação salgada. Mas toda essa área de cerca de 42 km, entre o litoral e Mossoró, é muito plana, com uma altitude média de apenas 5 m, e por essa condição de ser facilmente invadida pela água das marés e do rio quando cheio, é que o estuário é chamado de afogado. No caso de tsunami, seria tomada pela água do mar sem dificuldade. Nossa tranqüilidade estaria na raridade do fenômeno no Atlântico.

Ao chegar em casa, alem de folhear rapidamente os livros que havia comprado no sebo (um livro de Clarisse Lispector e outro de Lygia Fagundes Telles), lembrei de verificar, com mais vagar a possibilidade de um tsunami no Nordeste. Eu já sabia que o asteróide que causou a extinção dos Dinos, há 65 milhões de anos, havia deixado marcas nas costas pernambucanas, através de um tsunami com ondas de 20 m de alturas. Mas isso, quando não havia gente por aqui para observar e morrer. E qual não foi minha surpresa, ao me deparar com informações atuais sobre o que se esta chamando de mega-tsunami, que poderá ocorrer a partir da erupção do vulcão Cumbre vieja, localizado na ilha vulcânica de La Palma, no arquipélago das Canárias.  O The Guardian noticiou, a BBC apresentou documentário e de repente todo o mundo acordou para essa possibilidade.

O cientista americano Steven Ward, da Universidade da Califórnia diz que o vulcão possui um ciclo de atividade de 250 anos e que está prestes a acordar de novo. O pior, desta vez é que ele deverá jogar ao mar, metade da montanha que o forma, uma massa com cerca de  1.5 x 1015 kg, gerando imediatamente ondas com a magnitude de 600 metros de altura. 

Se tudo ocorrer como o diabo quer e as simulações estiverem corretas, as ondas gigantes, navegando à cerca de 1000 km/hora, chegarão à costa africana em uma hora, ao Sudeste da Inglaterra em cerca de 3 horas, e à costa leste da América do Norte e ao Nordeste do Brasil, em mais ou menos 6 horas. Claro que a energia daquela onda original já estaria bastante diminuída, mas com possibilidades de produzir ainda ondas muito fortes de 4 a 8 metros de altura. 

O Jornal do Commercio de Pernambuco entrevistou o prof. João Adauto de Souza Neto, coordenador do curso de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que está ciente dessa possibilidade. Diz o cientista que antes de alcançar Fernando de Noronha, a onda gigante atingiria os Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e litoral norte do Rio Grande do Norte, o que nos coloca dentro da área de perigo.

A coisa é tão séria que na América do Norte já há estudos e preparativos para o caso do desastre vir realmente a acontecer. Cidades como Boston, Nova York, Washington D.C. e Miami, seriam severamente atingidas. Não são apressadas essas providencias, considerando o caso do Japão, que já esperava um grande terremoto há bastante tempo, mas que teve prejuízos monumentais. Para se ter uma idéia, a previsão feita em 2002, era de que quando ocorresse, cerca de 6.000 pessoas sucumbiriam quase que imediatamente. E isso está ocorrendo. No caso do Cumbre vieja, a questão também não é se, mas quando ocorrerá.

Calma, porém! Como sempre acontece, há quem duvide da magnitude do deslizamento de parte do Cumbre vieja para o mar, que gerará a onda. Tudo isso não passaria, ainda, de remota possibilidade, embora cientificamente baseada. Outros cientistas acham que o vulcão não explodiria em uma única rocha e que a onda criada seria muito menor. Mas como faz tempo que a gente escuta essa conversa de que o sertão vai virar mar, e com nosso velho hábito de só fechar a porta depois de roubado, é melhor ir pondo, calmamente, as barbas de molho. Eu, por exemplo, desejava muito mudar-me para Tibau, mas por enquanto vou ficando por aqui no Alto de São Manoel, bem no alto, longe das águas e mais perto de Deus a quem peço bênçãos para o sofrido povo japonês.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O LIVRO DO PAPA: NÃO LI E JÁ GOSTEI


Noticia-se, que em um novo livro, o segundo volume de sua obra “Jesus de Nazaré”, o Papa Bento XVI, exime os judeus da culpa pela morte de Jesus, repudiando assim, o conceito de culpa coletiva. O livro, de 348 páginas, foi lançado hoje em Roma, em sete línguas: alemão, italiano, inglês, espanhol, francês, português e polonês. A questão já havia sido objeto de manifestação oficial da Igreja, em um importante documento produzido pelo Segundo Concílio do Vaticano em 1965: 

Se bem que os principais dos judeus, com seus seguidores, insistiram na morte de Cristo, aquilo, contudo, que se perpetrou na sua paixão não pode indistintamente ser imputado a todos os judeus que então viviam nem aos de hoje.(Nostra Aetate,1966).

Embora em 1959, o pontífice João XXIII houvesse dado um passo na direção do entendimento, ordenando retirar da liturgia as frases, judeus pérfidos e perfídia judaica, desta vez a novidade é que um Papa repete como sua interpretação teológica, a afirmação do Concílio. O mundo judaico aplaudiu o posicionamento papal sobre esta questão, que tanto sangue inocente já derramou pelos séculos a fora. Não há dúvida de que, do ponto de vista dos contatos judaico-cristãos, é mais um passo importante. 

Gostei, mas acho inócuo. E todos sabem disso. Não é fácil mudar a opinião de milhares de pessoas pelo mundo, tendo continuamente, diante dos olhos, não só a afirmação neotestamentária do Seja crucificado! (Mt.27,22), mas várias outras, como reforço do antissemitismo. Como um cristão vai aceitar uma decisão da Igreja ou o entendimento pessoal do Papa, se a cada vez que ele folhear sua Bíblia - que tem como a própria palavra de Deus - vai ler que foram os judeus que votaram favorável à morte de Jesus? E os milhares de textos da tradição, que enfatizaram a culpa judaica? Alem do mais, o Papa declara que esses volumes são escritos sob sua visão teológica e não sob a autoridade da Igreja, sendo passíveis de discussão.

Considere-se, também, que o documento do Segundo Concílio do Vaticano e o livro do Papa, embora expressem, o reconhecimento do erro cristão, atingem apenas uma reduzida minoria.

Da França continuará gritando o bispo Massilon (1663 – 1742), pregando que -  Esse povo furioso exige que Seu sangue recaia sobre ele por toda a sua posteridade; da Alemanha permanecerá berrando Lutero (1483 – 1546) através do seu panfleto Contra os judeus e seus embustes (são cerca de duzentas páginas de impropérios) associando-os ao Diabo tal como fez o apóstolo João, colocando na boca de Jesus, a afirmação de que os judeus, mesmo os que a pouco o haviam aceitado, seriam filhos do Diabo (Jo 8, 31-44).Gritos que ecoaram, por séculos, como acusação e licença para perseguir e matar.
 
Contudo, o povo católico tem agora, um documento oficial e outro papal, pessoal é verdade, ensinando que o termo “judeu”, mencionado no affair Barrabás e em outros momentos do “Novo Testamento”, se referia à cúpula sacerdotal, e não ao povo em geral.

Se há de fato a vontade de eximir os judeus dessa culpa falaciosa, a continuação do processo deverá ser feita na formação de padres e pastores, para que quando das suas futuras prédicas, rechacem as interpretações antissemitas daqueles textos, optando pela verdade. Textos, por sinal, escritos vários anos depois dos fatos, em situação de perseguição, escritos em Roma para romanos, lavando as mãos de Pilatos e sujando as dos judeus.

Que grande descoberta, essa da inocência dos judeus! Quanta maldade! Foram necessários mais de dois mil anos para que se enxergasse algo tão simples. Só alguma espécie de cegueira diabólica pode ter impedido esse entendimento por tanto tempo. Oremos pelas vítimas dessa infâmia.

quinta-feira, 3 de março de 2011

ESCRITORES FAMOSOS: ESTRANHEZAS NA VIDA E NA MORTE


Mesmo sem querer fazer uma pesquisa sistemática, sobre os fatos curiosos na vida de autores famosos, aos poucos fui acumulando informações bastante interessantes. São manias, loucuras, tragédias pessoais, modos diferentes de se encaixar no mundo, que terminam por torná-los únicos. Escrevo, neste post um pouco longo, sobre algumas dessas estranhezas, ligadas a esses que considero eternos e fiéis amigos.

Surpreendeu-me, por exemplo, saber que, fugindo da maneira habitual, Fernando Pessoa, poeta português, preferia escrever de pé, no que alias, era semelhante à Guerra Junqueira, e que o escritor americano Truman Capote, bem ao contrário, se dizia um escritor horizontal – só conseguia pensar e escrever deitado.

Quanto ao produto da atividade literária, Clarisse Lispector dizia que, provavelmente, escrevia para salvar a vida de alguém, talvez a dela própria. Rachel de Queiroz, por sua vez, revelou seu estranho desprazer por essa atividade. Nem gostava de escrever, nem de ler o que escrevera. Um grau a mais, no reino dessa estranheza, é o caso do livro Museu do Romance da Eterna, lançado recentemente no Brasil, do argentino Macedônio Fernandes, amigo e inspirador de Jorge Luis Borges, que foi escrito para não ser lido. Não é bizarro?

 E o que dizer das esquisitices do grande contista Dalton Trevisan, que arredio, não cede o telefone a ninguém, não recebe visitas, é avesso a entrevistas e cujas raras fotos surgidas na imprensa foram feitas às escondidas? Dizem que detesta as edições antigas dos seus contos, pois ao contrário de Rachel, continua a reescrevê-los, a cortar, a podar o texto. Simenon, escritor belga, criador do inspetor Maigret, também cortava muito do seu texto, mas antes de publicá-los. Por incrível que pareça, retirava tudo que fosse literário: adjetivos, advérbios e todas as palavras que pudessem causar efeito estético. Por isso, nunca gostei dos seus romances policiais, preferindo Agatha Christie, de quem li quase tudo.

Eça de Queiroz, grande estilista português, era altamente supersticioso. Quando jovem vestia-se sempre de preto e ao chegar a algum lugar dizia – Cheguei, eu e meus abutres. E ainda mais: iniciava a subida de escadas sempre com o pé direito. Se esquecia com qual pé havia começado, voltava ao primeiro degrau. Dizem ter passado muito ridículo por causa disso. Mais supersticioso que ele, só encontrei o já citado Truman Capote: 

Tenho que multiplicar todos os números: há certas pessoas para as quais jamais telefono porque o número de seus telefones multiplicados, formam algarismos que não dão sorte...Não suporto flores amarelas...não viajo em avião em que haja duas freiras.

Aparentes frivolidades para a maioria, mas significativas para certas cabeças. Edgar Allan Poe, o pai do romance policial, por exemplo, tinha verdadeiro pânico de ficar só, de ser enterrado vivo, angustia que debelava através do álcool, que o terminou matando.

Também extravagantes são algumas de suas mortes, ou os acontecimentos em torno delas. Como o que ocorreu durante a morte de Machado de Assis. O grande escritor faleceu, ao que parece, de um câncer bucal, e segundo afirma-se morreu tranquilamente. Presentes estavam seus companheiros mais íntimos: Mário de Alencar, José Veríssimo, Coelho Neto, Raimundo Correia, Rodrigo Otávio, Euclides da Cunha. Contudo, há um fato inusitado: jóias e documentos foram roubados de sua casa, durante a sua agonia. Quem teria cometido o crime? O jornal O País, noticia em 06 dezembro de 1908, o inicio do inquérito. Coincidentemente Machado escrevera em Quincas Borba:

No meio daquela agonia, atravessaram-lhe o cérebro algumas memórias banais estranhas à situação, como a notícia de um roubo de jóias lida de manhã nos jornais (...)”
Euclides da Cunha, presente ao último adeus a Machado, morreria em menos de um ano depois, de forma trágica. Refiro-me a este caso, en passant, por já ter sido muito explorado. Ficou conhecido como A Tragédia da Piedade.

Certos casos são difíceis de acreditar, pelo inusitado, por sua quase impossibilidade. Como o que aconteceu com o educador e escritor baiano Anísio Teixeira. Primeiro, pelo fato da aparente premonição da sua morte. Dois meses antes do fato escrevera para um amigo:

Por mais que busquemos aceitar a morte, ela nos chega sempre como algo de imprevisto e terrível, talvez devido seu caráter definitivo: a vida é permanente transição, interrompida por estes sobressaltos bruscos de morte". (carta a Fernando de Azevedo)

Depois, pela causa da morte. Anísio, instado pelo amigo Hermes Lima, decidira candidatar-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, e como de praxe, realizou visitas protocolares aos acadêmicos. Josué Montello, registra no seu Diário do Entardecer, o encontro que tivera com ele a esse respeito. Depois de realizar a última visita, ao lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, Anisio desapareceu. Diz Josué:

   De repente, ao visitar outro amigo, a Fatalidade veio ao seu encontro. Anísio abriu   a porta de um elevador, que supôs à sua espera, e deu um passo firme, para se precipitar ao fundo do poço, sem que lhe vissem a queda.

 Anisio tinha toda razão sobre a imprevisibilidade da morte. Robert Lowell, poeta norte-americano, fundador da chamada poesia confessional, exalou seu último suspiro dentro de um taxi, em Nova York, em 1977. Sofreu um ataque cardíaco a caminho da reconciliação com sua segunda esposa, Elizabeth Hardwick. Roland Barthes, escritor e crítico literário francês, desenvolveu a idéia da morte do autor, defendendo o leitor e o crítico como criadores, junto com aquele, do sentido do texto. Famoso e muito solicitado, costumava freqüentar os mais importantes ambientes de Paris. Em 1980, após um desses encontros, com o então primeiro-secretário do Partido Socialista, François Mitterand, morreu atropelado em uma das ruas de Paris. Violento e inesperado final para uma mente brilhante.

Você sabia que o genial Guimarães Rosa, eleito para a Academia Brasileira de Letras, adiou sua posse por quatro anos, por medo de morrer de emoção durante o evento? Um dia criou coragem, marcou a data, empossou e morreu três dias depois, subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa estava na missa).Teria ele decidido pela posse, por saber, como médico, da morte iminente? Ou teria vivido mais se não tivesse empossado?      
       
 Pedro Nava, memorialista, e Otto Maria Carpeaux, crítico literário, tomaram conta de suas próprias mortes. Acharam que era chegado a hora e fizeram acontecer. O primeiro, aos 80 anos, depois de receber um misterioso telefonema, saiu de casa, com uma arma que ninguém sabia que tinha, e estourou os miolos. Seu corpo foi encontrado debaixo de uma árvore. Levou consigo as razões do seu ato. Se bem que se especule que o telefonema fora de um garoto de programa. O segundo faleceu em 03 de fevereiro de 1978, aos 79 anos. Causa oficial da morte: ataque cardíaco. Causa verdadeira:

Na madrugada de uma sexta-feira (03 de fevereiro de 1978), em último e vigoroso gesto, o escritor Otto Maria Carpeaux arrancou o emaranhado de tubos e sondas que atavam à vida seu precário corpo de 79 anos. “Mais liberdade”, pediu, - e lentamente mergulhou na agonia, morrendo no começo da tarde. (do livro, A Biblioteca e seus Habitantes, de Américo de Oliveira Costa).

Alerta aos escritores em potencial e àqueles que se julgam tal. Essas singularidades e destinos ocorrem naturalmente, não será por imitá-las, que as habilidades nos virão, como ocorreu com um meu amigo, pretenso músico, que ao ouvir de mim, que Beethoven era surdo, apresentou instantaneamente esse problema. 

Das superstições e manias, não escapamos, pois todos as temos. E nem da morte, sinal de igualdade na equação da vida. Só nos resta rezar para que a nossa partida seja plácida como a de Petrarca, poeta e humanista italiano do século XIV, que foi encontrado morto, de causas naturais, sentado em sua biblioteca, com a cabeça repousada sobre um livro. Uma morte literária, quase normal.